quinta-feira, 23 de abril de 2015

Centenário do Genocídio Armênio

Foto AFP-Kirill Kudryavtsav

Matéria publicada no Correio Braziliense


"A cerimônia de canonização das 1,5 milhão de vítimas do genocídio armênio, perpetrado pelos turcos otomanos, foi realizada nesta quinta-feira na Armênia, na véspera das cerimônias oficiais do centenário dos massacres.
A missa de canonização foi celebrada pelo chefe da igreja armênia, Catholicos Karékine II, em Etchmiadzin, a 20 km de Yerevan, em um edifício do século IV que é considerado a catedral cristã mais antiga do mundo.
Trata-se da maior canonização realizada por uma Igreja cristã."Mais de um milhão de armênios foram deportados, mortos, torturados, mas se mantiveram fiéis a Cristo", ressaltou Karékine."


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Traduzi e adaptei o texto do site  francês  de História  herodote.net



jovens armênias


Sábado, 24 de abril de 1915-Constantinopla,capital do Império Otomano
Seiscentos armênios notáveis foram assassinados por ordem do governo,marcando o início do primeiro genocídio do século XX. 
Foram entre 1 milhão e 200 mil e um milhão e meio de vítimas na população armênia do império turco, assim como mais de 250 mil na minoria assírio caldéia das províncias e 350 mil em Pontic (província  greco-ortodoxa)

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Nos primeiros séculos de sua existência, o Império Otomano tinha uma maioria de cristãos (eslavos, gregos, armênios, assírios caucasianos). 

Em Anatólia, no coração da Turquia moderna, os cristãos eram 30% a 40% da população e cumpriam  importante papel no mundo dos negócios e administração. 

A influência deste grupo se estendia mesmo  ao   palácio do sultão.

Estes "protegidos" (dhimmis em árabe do Alcorão) eram submetidos a pesados impostos,proibidos de portar armas e possuir cavalos, o que os deixavam incapazes de se defender.
Também  não poderiam testemunhar em tribunais contra ladrões ou assaltantes muçulmanos.  


Os primeiros sultões, muitas vezes nascidos de uma mãe cristã,eram  benevolentes em relação aos ortodoxos gregos e  aos armênios monofisistas.  


(Monofisismo-Doutrina cristã que afirma que Jesus Cristo possuía apenas a natureza divina. Surgiu no século V d.C., com as pregações de Eutíquio, falecido em 454. As igrejas da Armênia, a Jacobita da Síria e a Copta do Egito e da Etiópia abraçam esta doutrina como verdadeira.)

Estes últimos se estabeleceram na Arménia, ao sopé do Cáucaso, o formando o primeiro reino da História, e se uniram ao cristianismo.

Cristãos eram maioria na Cilícia, uma província do sudoeste da 
Ásia Menor é ,às vezes, chamada " Pequena Armenia" e também poderiam ser encontrados em Istambul,nas cidades libanesas e  em Jerusalém.

O Império Otomano,numa população de 36 milhões de pessoas, tinha aproximadamente 2 milhões de armênios no final do século XIX.

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Massacres Planejados  

O Império Otomano entrou num declínio acelerado. 
O sultão Abdul Hamid II, humilhado pelo Congresso de 1878, em Berlim,atiçou o ódio religioso para consolidar seu poder (os últimos czares russos fizeram o mesmo em seu Império) 

Entre 1894 e 1896, como "resposta" aos pedidos dos armênios para reforma e modernização das instituições,o sultão massacrou em torno de 200 a 250 mil pessoas.

Em Constantinopla, a violência foi desencadeada contra os armênios.
Um milhão deles perderam suas propriedades,milhares foram convertidos  à força e centenas de igrejas foram queimadas ou transformadas em mesquitas. 

Em junho de 1896, em região de Van, no coração histórico de Armenia, 350 aldeias foram varridas do mapa.

Estes massacres planejados já prenunciavam  o genocídio. O sultão fez de tudo para esconder o seu crime e ainda subornou a imprensa européia, comprando o silêncio sobre os massacres.

Abdul-Hamid II passou a se o líder espiritual de todos os muçulmanos.
Construiu a ferrovia Hijaz para facilitar a peregrinação a Meca.
E,apesar de seus esforços,não pode impedir a insurreição dos "Jovens Turcos".
Estes jovens oficiais,expressando o sentimento nacional turco, censuravam a excessiva complacência para as ambições estrangeiras e  para  com os árabes.
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Os  Jovens Turcos colocaram no trono um novo sultão: Mohamed V,sob estreita supervisão de um Comitê de União e Progresso (CUP, Ittihad em turco), liderada por Enver Pasha

Ansiosos para criar uma nação turca sem miscigenação,  multiplicaram as atrocidades contra os armênios na Ásia Menor.
Assim, ocorreram  entre 20.000 a 30.000 mortes em Adana (Cilícia) em 01 de abril de 1909 .

Reescreveram a História, ocultando o período otomano e lançaram campanhas para boicotar empresas de propriedade de gregos, judeus e armênios,apoiados no ressentimento e ódio dos muçulmanos turcos.

Turquia na guerra de 1914-1918


1º de novembro de 1914: O Império Otomano entrou na Primeira Guerra Mundial ao lado das Potências Centrais :os impérios alemão e austro-húngaro, contra a Rússia e o Ocidente.

Os turcos tentaram  trazer para suas fileiras russos armênios. Em vão 
Apesar do maior número de combatebtes,foram derrotados pelos russos Sarikamish  em 29 de dezembro de 1914.
 
O Império Otomano foi invadido. 

O exército turco perdeu 100.000 homens. 
Enver Pacha

No inverno de 1914, bateu em retirada e, no desespero multiplicou a violência contra os cristãos nos territórios que atravessam : armênios, assírios-caldeus e o povo Pontic ( gregos ortodoxos  no Mar Negro).
Além disso, apesar do comportamento exemplar dos 120.000 soldados armênios no exército otomano (eles   desertam menos de suas fileiras que os seus homólogos turcos), Enver Pasha ordenou que fossem retirados do front, desarmados e reenviados a seus batalhões originais. 
Nas semanas que se seguiram, foram executados sistematicamente.

Sob estas condições, os russos tiveram grandes dificuldades para reconquistar apoio de armênios e dos assírio-caldeus nas províncias ao leste da Turquia.
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Em 7 de abril de 1915, a cidade de Van, no leste da Turquia tornou-se um território armênio autônomo.
Ao mesmo tempo, por iniciativa de Winston Churchill, os franceses e os britânicos  preparararam um desembarque em Dardanelos para retomar Constantinopla.


O Genocídio

Os Jovens Turcos aproveitaram a agitação reinante para eliminar, de forma metódica e brutal, todos os armênios e assírios da Ásia Menor,região que consideravam "propriedade" do povo turco.

O ministro do Interior Talaat Pasha ordenou o assassinato de elite armênia da capital. 
Em seguida, é a vez da população armênia das sete províncias orientais 
( Os armênios de língua árabe províncias do Líbano e de Jerusalém não foram incluídos no massacre ).
Inicialmente, os funcionários do governo agruparam homens com menos de 20 e mais de 45 anos.Afastados de suas regiões, passaram a executar trabalhos forçados.
Muitos homens desses homens foram mortos no local.

1915: As deportações assassinas


Em uma primeira etapa, a meta oficial era remover os armênios e outros cristãos nas províncias do leste da Anatólia para Aleppo e acampamentos no deserto sírio.
A "Lei de deportação temporária" de 27 de maio de 1915, estabeleceu o quadro regulamentar da deportação dos sobreviventes, assim como o confisco de seus bens. 
Nas aldeias  que perderam  seus líderes e seus jovens, soldados e policiais tiveram todas as facilidades para capturar mulheres e crianças.
Estes infelizes seres foram colocados em trens e deportados para Deir ez-Zor, no Eufrates, uma região desértica na Síria Otomana.
Conduzidos sob o sol de verão, em condições desumanas, sem comida e  sem água, sob a constante ameaça dos inimigos da  etnia kurdeset, (muito animados com a  possibilidade de exterminar seus vizinhos e rivais) morriam rapidamente.

No entanto,cem mil jovens e adolescentes conseguiram sobreviver.
Os mais belos foram  raptados pelos turcos ou curdos para serem vendidos como escravos ou convertidos à força ao Islamismo e casados com familiares de seus algozes. 

(No início do século XXI, muitos turcos ficaram perturbados quando se descobriram que descendentes  jovens cristãos armênios arrancados de sua família e sua cultura)


Em setembro, chegou  a vez dos armênios da Cilícia que também foram encaminhados para o deserto da Síria em vagões de gado e, depois,transferidos para campos de concentração, em uma área de deserto, onde morreram  longe  de "olhares indiscretos".

Durante o verão de 1915, dois terços da população armênia sob soberania otomana haviam sido riscados da face da terra.
Acrescentemos a isso o desaparecimento dos assírio-caldeus nas províncias orientais de Diyarbakir, Erzurum e Bitlis,  situação geralmente associada `a de seus vizinhos armênios nas deportações e massacres. 

  1916  - Assassinatos em massa


Numa fase final, o governo turco decidiu liquidar, de todas as maneiras possíveis, os 700.000  sobreviventes  das viagens  da morte, estacionados em campos  da Síria.
Aqui está o texto de um telegrama enviado pelo Ministro à direção dos Jovens Turcos de Aleppo: 

"O governo decidiu destruir todos os armênios que vivem na Turquia. Temos de pôr fim às suas existências, sem  levar em conta   idade ou sexo. Escrúpulos de consciência não podem acontecer. "

Só permaneceriam vivas as  comunidades armênias de Esmirna, de Istambul e no Oriente Médio,  e as comunidades assírio-caldeus na Mesopotâmia..  que estavam longe demais da mira assassina.

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Os europeus e genocídio

Talaat Pasha, Ministro do Interior

No Ocidente, as informações sobre o genocídio causaram perplexidade, mas o sultão se justificou alegando  "  necessidade de mover as pessoas por razões militares" !
O governo alemão,aliado da Turquia,censurou quaisquer informações sobre o genocídio. 
A Alemanha manteve na Turquia, durante o conflito, uma missão militar importante ( que chegou a  12.000 homens). 

E depois da guerra, foi na Alemanha que se refugiaram os responsáveis ​​por genocídio, incluindo Talaat Pasha. 
O Tratado de Sevres assinado 10 de agosto de 1920 entre os Aliados e o novo governo do Império Otomano previa o julgamento dos responsáveis ​​pelo genocídio. 

O nacionalista Mustafa Kemal cancelou as resoluções.
Primeiro a favor da punição dos responsáveis ​​pela derrota e genocídio, Mustafa Kemal Artatürk
Mustafa Kemal Artatürk
mudou de idéia porque precisou "reunificar a nação turca para enfrentar os gregos e os ocidentais que ameaçavam a sua soberania". 

Decretou uma anistia geral em 31 de março de 1923.


No mesmo ano, o general completou o "turquificação" da Turquia ao expulsar os gregos que viviam ali desde tempos remotos. 
Istambul, uma cidade com dois terços cristãos em 1914, tornou-se exclusivamente turca e muçulmana.

Os nazistas tiraram lições a partir do primeiro genocídio da história e da oportunidade perdida para julgar os culpados.

"Quem se lembra o extermínio dos armênios?"  perguntou Hitler  em  22 de agosto de 1939.
O extermínio dos judeus veio dois anos depois..

Apenas na década de 1980  a opinião pública ocidental recuperou a memória do genocídio,  com a investigação das Igreja Armênia e dos jovens ativistas da terceira geração de sobreviventes.

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*Coloco aqui um pouco de minha história pessoal.
Abaixo, a porta de entrada do campo de concentração nazista em Teresienstadt, atual República Tcheca,onde minha avó paterna esteve durante 3 anos e meio,sendo libertada pelos russos.
Como em todos os campos de trabalho e extermínio,a ironia cruel : Arbeit macht frei/O trabalho liberta. 


Jamais esqueceremos.



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