sábado, 7 de março de 2026

8 de março -Dia Internacional da Mulher.

  


  

 

Acrescento dados obtidos em pesquisas na internet para complementar e atualizar o meu texto original:

"Embora a data foque na luta histórica das 

mulheres, organizações de direitos humanos 

destacam que mulheres lésbicas, bissexuais e 

trans enfrentam camadas adicionais de 

preconceito, conhecidas como lesbofobia e transfobia.
 Cenário da Violência no Brasil
  • Crescimento Geral: O Brasil registrou um 
  • aumento de quase 40% na violência contra a 
  • população LGBTQIA+ em períodos recentes. 
  • Em 2024, o país teve quase 300 mortes 
  • violentas motivadas por LGBTfobia, uma alta 
  • de 8% em relação ao ano anterior.

  • Violência de Gênero: Em 2025, a média de feminicídios chegou a quatro mulheres mortas 
  • por dia no Brasil, reforçando a urgência de políticas de proteção integradas.

  • Invisibilidade: Durante o 8 de março, 
  • movimentos sociais denunciam que a violência 
  • contra mulheres que não seguem padrões 
  • heteronormativos é muitas vezes silenciada ou subnotificada.
Proteção Legal e Datas de Conscientização
Para combater essa realidade, o Brasil conta 

com marcos legais e datas específicas de   

mobilização"

AGORA, ABAIXO,MEU TEXTO













  











 


 

O livro Meninas Alfa (Alpha Girls- Barnes Noble

 

/2006),de Dan Kindlon,  psicólogo e professor da

 

Faculdade de Saúde Pública  da Universidade  

deHarvard, traz para o feminino uma figura usada

 

na biologia animal: o "macho alfa"- o líder,o mais forte

 

do grupo,o que coleta mais alimentos e ganha as

 

melhores fêmeas.



Kindlon, ele mesmo pai de duas adolescentes, reuniu entrevistas, estudos e estatísticas sobre a nova geração de meninas americanas, com idade entre 15 e 20 anos e tem certeza de que elas estão prontas para enfrentar o mundo.

*O filósofo francês Gilles Lipovetsky, autor de “A terceira Mulher (Companhia das Letras)” acha que "nenhuma transformação social de nossos tempos foi tão profunda, rápida e rica de possibilidades futuras quanto a emancipação feminina".
E completa: "a situação presente é marcada por tal defasagem entre as qualificações das mulheres e sua posição hierárquica que a pressão para o topo é quase inevitável". 
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A Lei número 11.340, aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo presidente Lula em 7 de agosto de 2006, ficou conhecida como Lei Maria da Penha - uma homenagem à garra e coragem da farmacêutica Maria da Penha Maia Fernandes ,que foi espancada pelo marido durante anos, até ficar paralítica.

A lei alterou o Código Penal Brasileiro e determinou que agressores de mulheres no âmbito doméstico ou familiar sejam presos em flagrante ou tenham sua prisão preventiva decretada.

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No entanto,as teses de Kindlon e Lipovetsky e mais todas as conquistas e avanços continuados em seis séculos de militância feminista não conseguiram impedir, até hoje, o sacrifício de nossas irmãs nigerianas mutiladas na genitália para que não sintam prazer sexual. 

Nem que, segundo a lei islâmica denominada Sharia (Shari'ah ou Charia) e com o aval de um tribunal religioso, uma mulher considerada adúltera tenha sido condenada a ser enterrada até o pescoço (ou as axilas) e apedrejada até a morte pelos vizinhos e parentes da parte que se julga ofendida.

Uma campanha internacional capitaneada pela Anistia Internacional, da qual tive a honra de participar,reverteu essa barbaridade.
Sakineh Mohammadi Ashtiani. confessou sob tortura,foi condenada a 90 açoites por relacionamento sexual ilegítimo, sendo viúva. 

Depois, veio a sentença de morte por apedrejamento.
  Sakineh continua viva por conta da militância dos direitos humanos com o apoio da comunidade internacional,mas até quando?
Muitas outras iranianas esperam sua vez de morrer.
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Cronologia do desejo de igualdade
1405 - Cristine de Pisan - viúva e mãe de 3 filhos, considerada pelas feministas como a primeira mulher a protestar de forma veemente contra o preconceito e descriminação - escreveu o livro "La Cité des Dames". A obra tentava reformular, em pleno século XV, o papel da mulher na sociedade.

1789 - A revolução francesa trouxe como novidade o uso das palavras "cidadão" e "cidadã" para simbolizar a igualdade.

1866 - Inspirado pelo economista John Stuart Mill, o feminismo se manifestou na Inglaterra através de ações de impacto (e muitas vezes agressivas) para a obtenção do direito de voto.

1899 - Nos Estados Unidos, algumas senhoras pertencentes a grupos anti-escravagistas participaram da primeira convenção pelos Direitos das Mulheres no estado de New York e formaram a primeira associação oficial de mulheres (International Council of Women).

*1903 - Emmeline Pankhurst fundou a União Feminina, Social e Política, cujas militantes, que atuaram até o início da Primeira Guerra, ficaram conhecidas como suffragettes.

Agosto de 1910 - Por iniciativa da jornalista alemã Clara Zetkin, mulheres de 17 nacionalidades reuniram-se em Copenhagen com o objetivo de criar um "Dia Internacional da Mulher, aglutinando assim os esforços na luta para obtenção do direito do voto feminino.

25 de Março de 1911 - Ocorreu a tragédia da fábrica de camisas Triangle, em Washington Place, Nova York. 
Cento e trinta e nove trabalhadoras, jovens imigrantes italianas e judias, morreram devido à falta de segurança nas instalações. 

Este fato dramático passou a fazer parte do imaginário coletivo e é sempre relembrado, desde que o Dia Internacional da Mulher foi oficialmente fixado em 8 de Março, pela Assembléia Geral da ONU, a partir de 1975.

1923 - O Japão, numa atitude simbólica, mas impactante, abriu as portas de suas academias de artes marciais às mulheres.

1960 - Surge o Novo Feminismo, congregando as militantes nas lutas dos negros norte-americanos pelos direitos civis e as do movimento contra a Guerra do Vietnã. A americana Betty Friedan funda a NOW (National Organization for Women), de onde se origina o Movimento de Liberação da Mulher.


1985 - É instalada a primeira Delegacia de Atendimento Especializado à Mulher - DEAM, em São Paulo. Rapidamente, outras são implantadas em vários Estados brasileiros e a Câmara dos Deputados aprova o Projeto de Lei no. 7353, que criou o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher.

*1988 - Mulheres brasileiras representadas por diversas feministas e pelas 26 deputadas federais constituintes, obtêm um importante avanço: através do "Lobby do Batom" é feita uma emenda na Constituição Federal, garantindo igualdade a todos os brasileiros e brasileiras perante a lei, sem distinção de qualquer natureza.

*1995 - O Congresso Nacional incluiu o sistema de cotas na Legislação Eleitoral, obrigando os partidos políticos a inscreverem, no mínimo, 20% de mulheres em suas chapas proporcionais (Lei nº 9.100/95 - § 3º, art. 11).
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Dr.Nelson Carneiro e a Lei do Divórcio

O grande responsável pela mudança do status feminino no Brasil foi um homem: o Dr.Nelson Carneiro (1910-1996-foto). 

Advogado especializado em Direito de Família que, comovido com as tragédias pessoais de suas clientes, dedicou sua vida a reverter este quadro.
É o autor de todas as leis que apoiam as mulheres brasileiras, inclusive a Lei do Divórcio e a que beneficia a companheira.
Cumpriu 3 mandatos de Deputado Federal e 3 de Senador, em 50 anos ininterruptos de vida pública honesta e limpa.
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Da solitária sonhadora Christine de Pisan na Idade Média à mais radical militante século do século 21 e às nascentes Mulheres-Alfa, todas expressam uma vontade comum de mudar a vida em geral e suas vidas em particular, redefinindo com consciência os fundamentos culturais e políticos da sociedade.
E termino com o que a revista The Economist publicou: "Esqueça a China, a Índia ou a internet. O mais poderoso motor do crescimento global são as mulheres".
Adoramos homenagens, mas continuamos desejando merecer respeito.
Parabéns para todas nós.
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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O suicidio de PEDRO NAVA. A tragédia do relógio da Glória

 



Uma nuvem de fumaça paralisante e um silêncio ensurdecedor pairavam sobre as redações dos jornais cariocas na noite de 13 de maio de 1984, após a divulgação de um suicídio ocorrido poucas horas antes numa  praça na Glória.Um senhor de avançada idade e fisionomia bem conhecida foi encontrado morto perto de casa.


 
A Glória é um bairro de classe média e média-alta no Rio de Janeiro e  deve seu nome à Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, uma das primeiras construídas na cidade no século XVIII, onde são realizados casamentos e batizados dos descendentes  de Dom Pedro II.


Era chamada “ Saint-Germain-des-Près” carioca, porque ali  funcionavam hotéis de todas as tendências, frequentados por parlamentares em exercício ,antes da transferência da capital para Brasíla.
À noite existia –e atualmente continua existindo- um tradicional ponto de prostituição,frequentado basicamente por  travestis.

Era de  Pedro Nava,o grande escritor e memorialista,médico consagrado e unanimidade em se tratando de bom caráter e retidão,  o cadáver  ali encontrado com um tiro na cabeça,junto ao relógio da Glória ,um dos marcos mais expressivos do Rio de  Janeiro.


Nava e sua mulher ,dona Nieta,residiam na Glória e, naquela  noite, após repassar com ela  o discurso que faria ao receber ,dentro de poucos dias ,o tíitulo de Cidadão Carioca na Assembléia Legislativa,o telefone tocou
Dona Nieta atendeu ,passou-lhe o aparelho.

Nava ouviu em silêncio o que lhe disseram, ficou visivelmente transtornado e comentou “ “nunca ouvi nada tão obsceno”
 

Aproveitando pequena distração da esposa, apanhou um revólver calibre 38 ,saiu pela porta dos fundos do apartamento e perambulou durante horas pelo bairro.
Os travestis e prostitutas que ali faziam ponto testemunharam os últimos momentos do senhor triste e cabisbaixo, que `as 20.30  deu fim `a tão fecunda e ilustre vida.


As investigações



Zuenir Ventura,meu Mestre no curso de Jornalismo  da UFRJ e, na época, chefe de  redação da revista ‘Isto É” conta, num capítulo inteiro de seu livro “As minhas Histórias dos Outros (Editora Planeta,2005)que,no dia seguinte,segunda feira,começou apuração mais substancial porque uma versão meio inconcebível circulava pelas redações.

Pedro Nava estaria sendo chantageado por um garoto de programa, o“Beto da Prado Júnior”.


As investigações ,que tiveram como fonte um reporter gay que conhecia o local, levaram a um sujeito meio estranho,morando num prédio horroroso,cabeça de porco,corredores enormes, umas quinhentas portas.

Nava tinha passado  a frequentar o local `as quartas feiras,quando-teoricamente- estaria na reunião de um Conselho de Cultura.
Sentiu desejo de ser voyeur e pediu uma terceira pessoa.


“Beto da Prado Junior” afirmava ter uma foto com o escritor  e  a estaria negociando com a revista “Manchete”.

Se a “Isto É’ desejasse exclusividade, teria que pagar mais.

Amigos de Nava procuraram dissuadir a editoria de publicar a versão,alegando que o morto era um intelectual respeitado, tinha deixado viúva,parentes e amigos perplexos.
Assim,a repercussão foi abortada.


A tese de doutorado da professora francesa Monique LeMoing veio esclarecer tudo.Tornou-se um livro: “”A solidão Povoada” (Nova Fronteira,1996) que causou problemas com os descendentes de Nava, mesmo tendo citado textos do prórprio autor.

“Solidão Povoada”


Escreve Monique: “Pedro Nava acusava com violência os educadores, tanto os pais como os mestres, que consideram a sexualidade como ‘tema tabu’, criando complexos e até mesmo desvios sexuais; quando esta sexualidade — ele já verificara como ser humano e como médico — é o nó da vida, o elemento incontornável, que precisamos não somente reconhecer, mas aceitar e respeitar tal como é”.


Monique pergunta:  “O que dizer das suposições emitidas depois da sua morte em relação a sua homossexualidade?”


E tenta responder, com cuidado: “Sem dar o menor crédito às maledicências e pondo de parte as tagarelices (não podemos deixar de constatar ao longo da obra e nas suas declarações aos jornalistas que Pedro Nava estava preocupado com este problema), que já tinha pensado nele e que estava chegando a certas conclusões; que para ele a homossexualidade não deveria ser considerada como desvio sexual, nem como tabu, visto que ela está latente em cada homem, e que acontece, que se manifesta de diversas formas nas relações humanas”.


O próprio Nava escreveu: “No relacionamento de homem para homem, no estabelecimento de uma confiança, de uma simpatia, de uma amizade — entra muito do terreno neutro da sexualidade, de uma espécie, digamos, dessa homossexualidade subclínica que habita os confins de todos. [...] Todo mundo atravessa um período intersexual... a vida é foda: o resto é brincadeira”

Completa Monique : “Dizia-se que freqüentava certos meios homossexuais do Rio de Janeiro e ninguém acreditava que ele fora capaz de ter uma vida dupla, que tinha sido objeto de uma chantagem qualquer e compelido a um gesto de desespero”.

Biografiazinha despretensiosa


“Eu sou um pobre homem do Caminho Novo das Minas dos Matos Gerais”
Parafraseando Eça, assim começa Pedro Nava o seu “Baú de Ossos”

Nasceu em 5/6/1903 ,em Juiz de Fora-MG,fez seus estudos como interno do Colégio Pedro II (como conta no “Chão de Ferro”)e  formou-se em Medicina pela (atual)Universidade Federal de Minas Gerais Clinicou no interior de São Paulo e, em 1933, mudou--se para o Rio onde trabalhou em vários hospitais das redes pública e particular


Sua literatura médica está em.  *Território de Epidauro - Crônicas e Histórias da História da Medicina (1947) e  *Capítulos da História da Medicina no Brasil (1948).

Amigo de Carlos Drummond de Andrade e dos demais intelectuais mineiros de seu tempo,participou da edição da modernista  “A REVISTA”.

Como poeta,teve seus trabalhos publicados na Antologia de Poetas Bissextos (1948,organizada por Manuel Bandeira).


Como memorialista publicou Baú de Ossos (1972), Balão Cativo (1973), Chão de Ferro (1976), Beira-Mar (1978), Galo das Trevas (1981) e O Círio Perfeito (1983)e o incompleto “Cera das Almas’ que iniciou pouco antes do suicídio. 

As obras foram reeditadas pelo Atelier Editorial.


Pedro Nava não deve faltar em nenhuma estante sensível.

“Balão cativo” recebeu o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro
“Baú de Ossos” recebeu o Prêmio Luísa Claudio de Sousa do Pen Club
Foi escolhido “Personalidade Global de 1973”pela Rede Globo e jornal O GLOBO Prêmio Associação Paulista dos críticos de Arte (1974).
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Com cerca de quatrocentas páginas cada um,eu já os li,reli,treli,quadrili e sei alguns trechos inteiros de cór. E como  admiro esse homem! 


Pela elegância, simplicidade,criatividade,pertinência,abertura de mente,observação profunda do ser humano e pela enorme compaixão e misericórdia que,grande médico, teve ocasião de exercer pelos seus doentes.


Como Nava ,também sou ex-aluna do Pedro II e aqui compartilho, com os antigos e novos colegas, a corrente de energia instantânea que se forma ao pensar no mantra/grito de guerra secreto que nos une - “A taboada”.


Tenho a certeza que nos nossos dias,com os fenômenos mediáticos,Pedro Nava –geminiano de fé - certamente acolheria as minicameras e toda a parafernália digital de que dispomos.


Com os novos parâmetros sociais e advertências sobre chantagem,extorsão,calúnia e difamação -agora tratados com atenção pelos órgãos de direitos humanos e  da comunidade LGBTQIA+ - as coisas poderiam ter terminado de forma bem diferente. O chantagista teria sido capturado, punido e execrado publicamente.


Meu feeling, entretanto, é que Nava,oitentão nos anos oitenta,carente e insone como conta nos livros-e só quem tem insônia compreende! ,procurava  algo fácil de entender e difícil de conseguir: colocar um pouco mais de cor na vida.


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