quarta-feira, 29 de julho de 2015

Pagu, a musa modernista dos anos 30 e 40

Patrícia Rehder Galvão


(São João da Boa Vista, 9 de junho de 1910 — Santos, 12 de dezembro de 1962)

Escritora paulista,poeta, diretora de teatro,tradutora,desenhista e jornalista , poeta, diretora de teatro, tradutora, desenhista e jornalista.
Militante comunista, foi a primeira mulher presa no Brasil por motivações políticas.

Eternamente Pagu é um filme brasileiro de 1988, o primeiro dirigido por Norma Benguell,com Carla Camurati no papel título.
Rita Lee a homenageou em "PAGU".onde declara que

Mexo, remexo na inquisição
Só quem já morreu na fogueira sabe o que é ser carvão
Eu sou pau pra toda obra, Deus dá asas à minha cobra
Minha força não é bruta, não sou freira nem sou puta
Porque nem toda feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é
bunda

Meu buraco é mais em cima 

...sou Pagu indignada no meu tanque


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Na cidade natal existe um Memorial em sua homenagem.
PARA NÃO ESQUECER PAGU 

( por Sylia Rehder,prima de Pagu,para o Jornal Unidade , do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de São Paulo.)


"Quem foi Patrícia Rehder Galvão, ou Pagu, como ficou conhecida?
 A resposta fácil será : Pagu foi a musa do movimento de antropofagia e uma das mulheres de Oswald de Andrade. A menos óbvia: uma rvolucionária que teve na sua atividade poliítica seu maior algoz. 
A resposta inesperada e talvez a que melhor a defina é: Pagu foi uma grande jornalista. Uma mulher inquieta e atenta a seu tempo que optou pelo uso da palavra escrita para transmitir suas idéias e pelo jornal como meio de fazê-las chegar a um maior numero possível de pessoas.

Vários jornais do eixo Rio/São Paulo publicaram artigos, crônicas e reportagens de Pagu durante os seus 55 anos de vida. 

Jornais panfletários, alternativos, ou da grande imprensa da época. Cada um deles pode experimentar o texto ácido, de construção ousada e de conteúdo surpreendente. Por intermédio de Pagu, puro esforço de reportagem, alguns desses tiveram o privilégio de ter figurando nas suas páginas personagens como Freud, Kafka e Jove - esses dois últimos ainda praticamente desconhecidos do público brasileiro.


Pagu tomou gosto pelo ofício cedo, quando ainda era apenas Patrícia. Aos quinze anos, em 1925, estreou como colaboradora do Brás Jornal sob o pseudônimo de Patsy, um dou muitos que adotaria em toda sua vida. 


Da colegial exótica e de idéias surpreendentes descobertas pelos "antropófagos" em 1929, sobrou para a jornalista dosanos seguintes a bagagem literária adquirida sob a orientação de Oswald e Tarsília do Amaral. " 

Ela era muito jovem, sem lastro intelectual representativo. Por isso contou com a orientação dos modernistas mais velhos. Oswald fazia listas de livros para ela ler. 
Até então, Pagu se guiara pelo instinto, sempre teve um faro muito bom para descobrir coisas", lembra o jornalista Geraldo Galvão Ferraz, filho de Patrícia com o também jornalista Geraldo Ferraz, seu grande companheiro dos últimos anos de vida.


O Brás Jornal foi o início. Em 1929 editou com Oswald a Revista de Antropofagia, na chamada 2a dentição,fase em que a revista se torna mais radical e combativa, certamente fruto da interferência de Pagu. " Os textos mais atrevidos, insólitos e einsolentes, jocosos e inventivos são dela e não de Oswald. Pagu sempre foi maisousada que Oswald", declara Marcos Faerman criador do jornal alternativo Versus e um apaixonado pela vida de Pagu.

O Jornal Homem do Povo, editado em 1931 é mais uma parceria com Oswald e marcou o ingresso de Pagu no Partido Comunista.


Jornal panfletário, nele ela dirigiu a seção Mulher do Povo, sempre recheada de textospolêmicos, ácidos eextremamente ousados, sua marca pessoal. 
Com trechos como este, sobre a quebradeira da elite do café: " Os condes e fazendeiros comendadores da roleta quebraram o título. As festejadas e ilustres mamães de caridade desta vez despencaram das coleirinhas de veludo e brilhantes para o mofo da riqueza suja, quotidiana... E as meninas do Sion já são girls clandestinas".


Para Marcos Faerman, O Homem do Povo e Pagu foram precursores do que há de mais representativo naimprensa alternativa: " O Homem do Povo com certeza influenciou o Pasquim. E a Pagu foi uma jornalista com um texto tão vanguardista que até hoje ele seria contempórâneo. Ela poderia ter trabalhado com brilhantismo em qualquer publicação dos anos 60, 70, 80 ou 90.

O Homem do Povo circulou apena oito edições. A polícia fechou-o após um artigo de Oswald criticando alunos da Faculdade de Direito "... cancro que mina o patrimônio do Estado..." . 
Na cobertura do episódio a imprensa da época execra Pagu e Oswald. Pagu seguiiu, de forma cada vez mais apaixonada, sua militância no Partido Comunista.


 Uma militância radical que lhe valeu flagelos físicos, frutos das sessões de tortura pelas quais passou durante diversas prisões, e moral, fruto da intolerância e incompressão do próprio partido. "Pagu fez inúmeros sacrifícios de individualidade para o bem do partido mas ela tinha uma personalidade forte demais para ficar presa ao esquema que ele impunha", relata Geraldo Galvão. 

Pagu conseguiu ser rebelde dentro de um partido considerado rebelde. O partido não perdoou e fez com que ela assinasse um documento onde se declarou " agitadora, individual, sensasionalista e inexperiente".

A decepção com o PC ainda não havia sido completa. Em 1933, a comunista Pagu resolve fazer sua "viagem redonda" por vários países incluindo Estados Unidos, Japão, União Soviética, Paris e China. 
A jornalista Pagu concilia a viagem com o trabalho. Vai como correspondente dos jornais cariocas Correio da Manhã e Diário deNotícias e do paulista Diário da Noite. Por onde passava, atenta a tudo, mandava notícias para abastecer osjornais e furos: uma entrevista com Freud feita a bordo do navio que a levava para a China, e a cobertura da coroação do Imperador Pu-Yi na Manchúria, única jornalista latino-americana a estar presente.


Em Paris, não se contentando com o trabalho de correspondente brasileira, foi como redatora do L'Avant-Garde. É em Paris que Patrícia Galvão sofre sua segunda prisão - a primeira havia sido em 31, durante um movimento de reivindicação de operários em Santos. 
Escapa de ser submetida a um Conselho de Guerra. Repatriada para o Brasil, em 1935, Pagu secretariou o jornal paulista A Platéia, mas por pouco tempo. 
Os próximos cinco anos seriam os mais angustiantes. Segue-se mais uma prisão que durou dois anos e a esta outra, já na vingência do Estado Novo, que roubou mais três anos de sua vida.


Cinco anos na prisão e muitas torturas. Pagu colecionou o triste título de primeira mulher a figurar entre os presos políticos do Brasil. 

Sai de cena a jornalista panfletária - Pagu havia se desencantado com a política - surge a jornalista madura, com uma vasta bagagem cultural adquirida nas suas viagens e nos muitos livros que leu no cárcere.

Mas o grande responsável por essa guinada na vida de Pagu - " verdadeiro salva vidas ", como afirma seu filho - Geraldo Ferraz. Ele recolheu os cacos e foi o apoio necessário para a nova fase de Patrícia que se seguiria. " A pessoa que saiu da prisão era sofrida física e mentalmente. 
A única coisa que ela poderia fazer para ganhar a vida era escrever como jornalista. E meu pai era um profissional muito disciplinado e prático que começou no jornalismo como tipógrafo", conta Geraldo Ferraz.

Passada a fase panfletária e de militância política, a história de Patrícia Rehder Galvão, ficou marcada pelo processo de profissionalização no jornalismo. Em 42 com o companheiro Geraldo Ferraz, foi redatora de A Manhã e de O Jornal, no Rio, e de A Noite ,em São Paulo. 


Sempre acumulando mais que um emprego, em 45 a jornalista trabalhou na agência de notícias France Presse, editou com a colaboração de Geraldo Ferraz a Famosa Revista e integrou a redação do Vanguarda Socialista. 
No Vanguarda publicou apena um artigo político e muitas crônicas literárias. " Naquela época , jornalista já não podia ter um emprego só". conta Geraldo Galvão. 

Ainda nesse período de 45 a 50, marcado por intensa atividade jornalística , Patrícia passou pelos jornais: o italiano Fanfulla, O Tempo, Jornal de São Paulo e Diário de São Paulo. Um furo que Geraldo Galvão dá para oUnidade: escreve contos políticiais de aventura e ação para a revista Detetive. " Este dado ninguém ainda deu. Só não vou dizer sob qual pseudônimo ela escrevia seus contos para revela-lo na biografia sobre minha mão que estou organizando".



O jornal Diário de São paulo viveu uma fase de pauta de alto nível, com a colaboração de Patrícia e Geraldo ferraz. O Suplemento Literário que editavam levava semanalmente até seus leitores autores inéditos, nada menos que James Joyce, Mallermé, Kafka, entre outros. " Patrícia escrevia uma biografia crítica e publicava trechos de cada autor. É a primeira vez que sai um texto de Ulisses no Brasil", conta Geraldo Galvão.


A Tribuna de Santos foi o último jornal pelo qual Patrícia passou e premiou com seu trabalho. Em 54, Geraldo Ferraz assume a secretaria de redação dojornal e Patrícia uma vaga na redação. A mesma qualidade de texto e alto nível das fontes que utilizava, foi transferida dos importantes jornais do eixo Rio/São Paulo , para a Tribuna. 
O jornal viveu período de grandes transformações como conta Clóvis Galvão, sobrinho de Patrícia, hoje editorialista da Tribuna: " O Geraldo era conhecido na imprenssa por sua bagagem intelectual e visão moderna do jornalismo. Ele foi convidado justamente para renovar o jornal, até então tradicional demais". 

Sintonia com a modernidade foi a marca deixada pela passagem de Geraldo e Patrícia pelo jorna santista. 
Clovis foi levado, do Estado para a Tribuna, por Geraldo e Patrícia nos anos 60. " O salário pago pela Tribuna era tão baixo que passeia morar com eles. Convivi de forma muito estreita com Patrícia nos últimos anos de sua vida. Ela foi jornalista até o fim, mesmo quando a doença já a consumia, não deixava de enviar suas crônicas para o jornal".


A Tribuna publicou o último texto de Patrícia Galvão, o poema Nothing. A jornalista morreu em dezembro de 1962 de câncer e com ela as diversas Patrícias representadas pelos pseudônimos com os quais assinava seus trabalhos: Pagu, Ariel, Patsy, Mara Lobo, Solange Shol ou simplesmente PT.

Patrícia Galvão talvez tenha sido individualista, como apontou o Partido Comunista, mas não era personalista".Pagu foi dona de uma irreverência honestam que é muito raro. Ela não é uma figura esquecida, mas misteriosa. 

O mistério faz parte do seu envoltório", declara Marcos Faerman.

Patrícia Rehder Galvão nasceu em São João da Bôa Vista. 
Sua mãe Adélia Rehder Galvão, era irmã de Jayme Rehder um dos patriarcas da família Rehder em Mococa . E Pagu, no auge de sua efervecência política e cultural, esteve em Mococa por diversas vezes visitando seus primos. Imaginar que a cidade àquela época pudesse compreender a dimensão de ter, mesmo por algumas horas, Pagu em su comunidade, seria exigir demais. 


O país não a compreendia. Mas vale lembrar a todas as mulheres inquietas, que a história da vida de Pagu merece ser conhecida. Como exemplo? Não. Pelo pouco que coneço dela, por intermédio de livros e entrevistas com parentes próximos, acho que odiaria isso.

Mas como referencial para aquelas que procuram não se curvar diante de imposições machistas, hipocrisia e mediocridade, e demonstraram isso mesmo em pequenos atos e escolhas.

Sempre foi um ícone para a família. E muitas vezes fiquei intrigada por que mesmo os mais conservadores, como seu pai, devotaram a ela uma grande admiração. Hoje compreendo. É impossivel não admirar uma mulher tão forte e corajosa. 

A matéria publicada agora na Folha do Pardo, foi escrita por mim

para o Jornal Unidade , do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de São Paulo.Poder realizar esse trabalho, foi um dos grandes prazeres que a profissão me deu até hoje."
Sylia Rehder
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