quinta-feira, 27 de setembro de 2012

"Resistência" -relançamento da Nova Fronteira

 
Sobre resistir, sobreviver e recomeçar
E sobre minha releitura.


15 de abril de 1941. O mundo de Agnès Humbert (Dieppe, 1894 - Paris 1963) ia bem, apesar da falta de notícias dos colegas judeus do Musée de l’Homme (em frente à Torre Eiffel) e dos abusos de poder por parte dos alemães invasores.
Ela escrevia um diário e já conspirava. O local dos encontros do grupo de resistentes  era a Closerie de Lilás, em Montparnasse.
Em março, o grupo começou a se dissolver e em abril, Agnès interrompeu a narrativa por ter sido presa..

“ Resistência",   no original “Notre Guerre’’  Editions  Paul Frères -1946, foi  relançado em ótima hora pela  Nova Fronteira ( 2008, tradução de Regina Lyra).
Uma vez que comecei, não deu para parar : li a segunda vez e a terceira.E esta agora, 3 anos depois. É uma fonte inesgotável de coragem, exemplo de vida e – mesmo - de História Contemporânea. E um alívio para horas de sofrimento - quando a gente pensa que está passando por alguns problemas, basta ler Agnès Humbert para que  a situação seja vista com a devida dimensão.

Sempre admirei a figura fortíssima de minha Oma (avó) paterna, que serviu por 3 anos e meio como escrava num único local de martírio: o campo de trabalhos forçados em Teresienstad, na atual República Tcheca, trazendo no pulso -até a morte - a marca de ser judia - um número gravado a ferro,
Eu a conheci aos nove anos a revi adulta, e pude visitá-la com certa freqüência até que morreu com quase 90 anos, lendo sem óculos. A resistente Oma sobreviveu  e retomou sua lojinha de tecidos na Rathaus Platz, em Münden, cidadezinha medieval que ficou imune aos bombardeios aliados.

A trajetória de Agnés Humbert foi outra. Perambulou por várias prisões coletivas, e celas solitárias  até junho de 1945, quando os americanos entraram em Wanfred e a libertaram tão magra que era chamada de  “Ghandi”.
Estava quase cega pelas emanações de gases na Fábrica Phrix, em Krefeld, onde manipulava, sem luvas, ácido e viscose para produção de seda sintética. A descrição dos sofrimentos causados pelo sulfeto de carbono na pele sem proteção é de arrepiar. Ela relata que brincava com varetas feitas de palha do colchão onde dormia e com uma bola feita de lã do cobertor e que as unhas ficaram tão crescidas que viraram armas. E que, durante dois meses, ficou com  a mesma roupa e sem banho. A roupa limpa  chegou em julho de 1942

Agnés Humbert, intelectual, historiadora da Arte, especialista em
Agnés Humbert
folclore, com inegáveis qualidades de liderança era  mulher coerente.
Terminada a guerra, não quís retomar o posto no Musée de l’Homme - de onde seu grupo de amigos saiu para não voltar e onde foram impressas 4 edições do jornal “Resistência”.
Com Jean Cassou - companheiro de resistência sobrevivente - trabalhou no  Musée d’Art  Décoratif  de Paris, criado em 1947.

A palavra “resistência”,  no caso de Agnès Humbert, tem duplo significado. Ela desafiou um regime sanguinário pela força de vontade e determinação e sobreviveu com problemas de saúde, mas dignamente. Foi condecorada com a Cruz de Guerra em 1949.

Uma característica interessante do  livro “Resistência” é o fato do diário ter sido escrito em dois tempos: em 1941 e , de memória, a partir do dia seguinte à sua libertação pelas tropas americanas. Para que  tudo ficasse fixado, sem as formas meio enfumaçadas que os acontecimentos costumam tomar no futuro, quando vistos com a perspectiva de “passado”.
E antes que o natural instinto de sobrevivência apague o lado negativo da situação.
Após a guerra, passou morar com o filho Pierre Sabbag que se tornou famosíssimo apresentador na tv na França.Pierre era fruto do casamento com o artista George Sabbagh .
As seqüelas do sofrimento não a deixaram em paz, mas Agnès continuou escrevendo seus livros até morrer em 1963.

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