quarta-feira, 8 de julho de 2009

Intolerância Oficial


  Caça às bruxas no Itamaraty completa 40 anos 
              
          (julho,2009)      
  


Qualquer notícia sobre perseguição política ou por qualquer outro motivo que atente contra os direitos básicos das criaturas  me atinge no lado esquerdo do peito:meu marido é anistiado político.

E foi indignada que li uma reportagem de impacto por Bernardo Mello Franco,publicada no caderno “O País”, páginas  10 e 12 , do jornal carioca O GLOBO, edição de domingo, 28 de junho passado.  
Não só no Senado de hoje mas, também em pleno período dos anos de chumbo da ditadura militar, aconteciam atos às escondidas. O jornal  teve acesso  a um dossiê secreto do Serviço Nacional de Informações.

 Aposentadoria compulsória,expulsão sem direito de defesa  e violação de intimidade foram as armas usadas  pela abominável Comissão e Investigação Sumária,criada pelo ministro Magtalhães Pinto  e presidida pelo embaixador Antônio Cândido da Câmara Canto.,com a assistência dos embaixadores Carlos Sette Gomes Perera  e Manoel Emílio Pereira Guilhon.

O grupo ,que aproveitou o rabo do foguete conhecido como Ato Institucional número 5, o AI 5 (dezembro de 1968) elaborou uma lista e tomou providências rápidas parado afastar dos quadros do Instituto Rio Branco 15 diplomatas,8 oficiais de chancelaria  e 25 servidores administrativos.
Foi a maior caça `as bruxas  da história da diplomacia no Brasil
*******
 Alcoolismo ,desinteresse pela carreira , indisciplina funcional e ‘emoções instáveis ‘também serviram como pretexto  para a violência,mas a carga pesada ficou mesmo para sete diplomatas que atentavam contra “os valores do regime pela prática de homossexualismo, incontinência pública escandalosa”

A quatro deles foi imposto um exame médico para verificar a orientação sexual.Não restaram registros sobre essas consultas.
A Vinícius de Morais, coube uma aposentadoria compusória.
 Então primeiro secretário foi demitido  porque,segundo o CIE (Centro de Informação do Exército) “sendo boêmio, parece ter errado de profissão e era "sócio ‘do Centro Brasileiro de Cultura",(não seria Centro Popular de Cultura da UNE? Ah,como eram desinformados os milicos)’organizacão de fachada  do movimento comunista internacional”
Mas no peito dos gorilas também batia um coração e,compreendendo que o doce Poetinha era “homem de letras e artista consagrado”,propuseram que fosse aproveitad no Ministério da Educação e Cultura.
.
Carreiras desfeitas,vidas destruídas e nasarabanda do preconceito entraram oito serventes,cinco porteiros e auxiliares de portaria e um mensageiro.
Os humildes servidores foram  companheiros, em arbitrariedade,de diplomatas de carreira cassados  por “risco de segurança’,já que seriam  simpatizantes do comunismo

       Ricardo Joppert
 Era uma vez um programa de televisão chamado “O céu é o limite” que,como diz o nome,testava conhecimentos em troca de prêmios altíssimos para a época,algo semelhante ao filme ganhador do Oscar de 2009,”Quem quer ser um milionário?”
No final dos anos 50,um moço de 16 anos,parou o Brasil, durante semanas, respondendo sobre a China.Li Ti-tsun,então embaixador da  República da Chima ,o ministro  da Educação, Chang Chi-yun, e o vice-ministro  de Relações Exteriores Shen Chang-huan.o convidaram para conhecer o país.
 O moço era Ricardo Joppert, e A viagem rendeu um livro chamado “A China é sempre  Formosa”,(Editora: Livr. Fleming Ltda
 1958)jogo de palavras e primeiro de uma série .

Aos 28 anos,já Segundo secretário no consulado de Gotemburgo, Ricardo Joppert foi chamado `as pressas ao Brasil e, no jornal distribuído no avião,ficou sabendo que estava aposentado.
“Nunca escondi que era homosexual.Na época isso era visto como problema porque a sociedade não estava preparada   para encarar minorias”,conta Ricardo ,que foi reintegrado em 1986 e ,hoje,trabalha no Museu Histórico Nacional 

 Raul José de Sá Barbosa
A matéria de  O GLOBO também  informa que Raul era primeiro secretário na Embaixada do Brasil em Jacarta e o próximo a ser indicado  para promoção por antiguidade quando .recebeu um telegrama informando sobre a aposentadoria compulsória,
Como se não bastasse a homofobia,sofreu uma sobrecarga de pena: dois meses na Indonésia  recebendo o equivamente a um salário mínimo na moeda brasileira da época.Quem conhece  a discriminação de perto,pode imaginar o que foi a volta do diplomata ao Brasil: eu sempre conto que os cassados pela ditadura, em quaisquer níveis,eram considerados  lixo,zero, pertencentes ao mais baixo escalão da raça humana e ele lamenta  nunca mais  ter sido procurado por nenhum colega de turma, todos, hoje embaixadores
 Raul  Barbosa é tradutor muito considerado,traduziu Vieginia Wool e Charles  Dickens e vive em Santa Teresa, no Rio,sozinho com seu cachorro.
               Nair Saud
Nair era oficial de chancelaria e trabalhava no Itamaraty desde os 17 anos.Foi seu primeiro emprego.
Hoje, aos 86,ainda não conseguiu absorver a cassação por “risco de segurança”, de acordo com a Comissão de Investigação Sumária.
Diz que durante oito anos perdeu contato com o irmão,que perferia “ter uma irmã prostituta a uma irmã comunista”“Era mentira”  nunca me meti  com política.“Gente que frequentava minha casa deixou de me cumprimentar como se eu tivesse uma doença”,diz Nair,emocionada.
 Era exatamente assim.Também me emocionei muito ao fazer esse texto,discordo do Ricardo Joppert:a sociedade ainda não está preparada para quem pensa diferente e mando um recado para Raul Barbosa: eu sei e  você deve saber  que,quem vive com um cachorro fiel,nunca está sozinho.
************************************************

.                           
  

2 comentários:

Anônimo disse...

Tetê,
Corro o risco de ser repetitivo,mas você sempre me surpreendendo...
Nunca tinha percebido as "segundas intenções' da belíssima "Sabiá".
Lindo blog,parabéns, gosto muito de você.
Abraços do Fernando M.

André Iki Siqueira disse...

Thereza,
belas fotos e registros que não podem se perder.
Quando vejo esses tanques e a onda em Honduras, fico até preocupado. Sorte é que aqui eles não voltam.
Bjs e abraço no camarada Elysio.