segunda-feira, 24 de julho de 2017

Helio Oiticica-ícone da contracultura no MoMa

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 Oiticica no Museu de Arte Moderna de Nova York
 Sobre a exposição:
https://www.moma.org/artists/7715https://www.moma.org/artists/7715

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Qual é o parangolé?
O tempo passa, voa e a questão do machismo latino ainda não foi bem resolvida quando se trata de oprimir o comportamento homossexual.
James Saslow, arquiteto, historiador,ativista americano e atualmente professor do Departamento de Arte no Queens College da Universidade da Cidadede Nova York, é interessado nas manifestações de artistas da comunidade LGBT em geral e na postura machista referente às artes plásticas na America Latina, em particular.
Em recente artigo, Saslow dissecou a arte gay do México à Argentina e concluiu que “a visível expressão da homossexualidade é abalada por atitudes sociais discriminatórias”.
A figura humana e a obra do carioca Helio Oiticica (foto) rompem o paradigma. Os reflexos dos episódios de Maio de 1968 na França - que como um rastilho de pólvora se espalharam pelo mundo - chegaram ao Brasil no auge da cruel ditadura militar em tempos de AI-5 e já encontrando respostas artísticas em andamento. Com talento e audácia no DNA, Oiticica  criou o conceito de “Tropicalia”; participou da histórica Bienal de Veneza de 68; utilizou o samba como inspiração de trabalho numa sociedade elitizada; criou os parangolés, os bólidos e os penetráveis usando material barato (pedaços de pano) que convidavam o espectador a interagir.
Oiticica, com sua criatividade, antecipou o movimento “arte povera” na Itália, em que os artistas usavam materiais alternativos (trapos de tecido, terra e madeira) e derrubavam os muros entre a arte e a vida real.

Berço esplêndido

Helio Oiticica nasceu em berço realmente esplêndido e liberal, na cidade do Rio de Janeiro, em 26 de julho de 1937.

Para se ter idéia de sua cabeça multifacetada, é preciso retroceder duas gerações.

José Oiticica, avô paterno, era uma figura.
Depois de ter estudado (e abandonado) medicina e Direito dedicou-se à pesquisa da língua portuguesa.

Era catedrático no Colégio Pedro II – na época, o Colégio Padrão fundado pelo Imperador e que gabaritava o ensino no Brasil.
A crônica familiar diz que reprovava até as sobrinhas. Criou a primeira gramática moderna de nosso idioma. Era poeta parnasiano, membro da Fraternidade Rosacruz e escreveu “O anarquismo ao alcance de todos”.

O pai de Helio, José Oiticica Filho, era entomólogo e totalmente avesso ao ensino tradicional. 
Deixou a alfabetizacão e primeiras letras dos filhos (Helio, Cesar e Claudio) por conta da mãe, Angela.

Filhos dele servindo Exército? Nem pensar. Foram proibidos de procurar o quartel. Enquanto estudava e classificava seus insetos, pintava e fotografava nas horas vagas.


Helio pintor, escultor e performático

Aluno de Ivan Serpa no MAM-Rj, integrou, com seu mestre, Lygia Clark Franz Weissmann e Amilcar de Castro, entre outros,o Grupo Frente, dentro dos princípios da arte concreta.

Em 1959, antenado no movimento conceitual que rolava na Europa e Estados Unidos, Helio – influenciado pela obra do pintor russo Casimir Malevich –assinou o Manifesto “Neo Concretismo”.

A obra inovadora e revolucionária prossegue com a série dos “metaesquemas” - guache sobre papel onde quadrados e retângulos dão a impressão de mobilidade.

Com o mesmo grupo de amigos artistas plásticos, participou da Bienal Internacional de 1957, em São Paulo, e de exposições no Rio e em Salvador.


Representou o Brasil na exposição de arte concreta realizada em 1960 em Zurique, na Suíça Foi a fase dos penetráveis, que propiciavam a integração da obra, em forma de labirinto, com o espectador.
Expôs nas coletivas de vanguarda “Opinião 65","Opinião 66", "Nova Objetividade Brasileira" e "Vanguarda Brasileira”. 
Teve mais duas participações nas Bienais de São Paulo de1959 e 1965 e na Bienal da Bahia, em 1966.
 
Seja marginal,seja herói”

Em 1964, passou a freqüentar a escola de samba da Mangueira, tornando-se passista. Integrou-se à comunidade para surpresa das elites.
Mais surpresas elas ficaram quando,tendo ao fundo o corpo do bandido “Cara de Cavalo”,morto em confronto com a polícia, cunhou a frase “Seja marginal,seja herói” .

O palco do show tropicalista da boate Sucata (outubro de 1968) era decorado com uma bandeira estampando o slogan de duplo sentido e o espetáculo foi interrompido pela Censura.

Hoje, com a “Cidade do Samba” em Santo Cristo (imediações do Cais do Porto do Rio), mostrando todas as etapas da criação de um enredo carnavalesco e os camarotes da Sapucaí sendo uma vitrine “para ver e ser visto”, o leitor não imagina o que significou o gesto ousado do Helio.ao se integrar na comunidade mangueirense.

Ali surgiram os seus parangolés, primeira das manifestações ambientais do artista que usava capas, estandartes e tendas de algodão ou náilon, com poemas em tinta sobre o tecido. 
Quando fechados, os parangolés eram "as asas murchas de um pássaro", e “ bastava alguém vesti-las e abrir os braços para que se confundissem com uma asa delta para o êxtase”, como definiu o poeta Haroldo de Campos.


“Qual é o parangolé”?, na gíria carioca da época, significava “Qual é a parada?” ou “Qual é a boa?”

A seguir, Hellio Oiticica montou a instalação sala de sinuca (1966) e o penetrável"Tropicália’, um jardim com pássaros vivos entre plantas, lado a lado com poemas-objetos.

Tropicália não só nomeou mas também consolidou a estética do movimento tropicalista na música brasileira, nos anos 1960 e 1970. 

No "Apocalipopótese" (1968), reuniu várias manifestações performáticas junto com de outros artistas, no Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro.

O conjunto dessas experiências pioneiras foi tema de uma importante exposição, realizada em 1969 na Whitechapel Gallery de Londres, inaugurando, segundo Helio, "uma experiência ambiental (sensorial) limite".

Em 1970, participou da mostra, organizada pelo Museum of Modern Art (MoMA) e recebeu bolsa da Fundação Guggenheim.

Viveu nos Estados Unidos durante oito anos e, na volta ao Brasil, se fixou no Rio de Janeiro. 

Sempre focado na pesquisa e na inovação, criou os bolides, núcleos compostos de pedras, cristais e asfalto, acomodados em caixas de vidro.
O uso de materias baratos inspirou muita gente da moda e, em futuro próximo, o movimento “povera,’ na Itália.
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14/3/1980-Sozinho em casa, teve um aneurisma cerebral e, lúcido mas imobilizado e mudo passou por quatro dias de agonia, até que amigos preocupados com a ausência arrombaram a porta do apartamento. 
Helio Oiticica morreu em 22 de março de 1980

Maio de 1968
Em maio de 1968, uma série de protestos estudantis e uma greve geral quase causaram a queda do governo da França, então presidida pelo General Charles de Gaulle, herói nacional.

Embora protestos, na maioria, fossem orquestrados por esquerdistas, as instituições políticas e os sindicatos de classes ficaram longe do rumo que tomou o movimento. 

Uma série de greves estudantis terminou em confrontação com a polícia, na Sorbonne, no Quartier Latin. 
As manifestações acabaram sendo uma oportunidade para subverter a moral tradicional, baseada no sistema de educação e no emprego. Na Itália e na Holanda os estudantes se revoltaram contra a ordem burguesa.
Meses antes, nos Estados Unidos, o movimento contra a Guerra do Vietnã tinha radicalizado geral, acusando o capitalismo selvagem de instigar o caos.

No Brasil, o famigerado governo militar decretou o AI-5, punindo artistas e intelectuais. como revanche do desejo de liberdade. 
Foi a debandada, Gil, Caetano, Chico Buarque, Betinho e tantos outros foram “convidados a se retirar”.

 O que hoje é História já doeu muito.

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No "Catálogo das Artes", as principais obras de Helio Oiticica  (com detalhamento) 
Clique aqui e veja!
https://www.catalogodasartes.com.br/Lista_Obras_Biografia_Artista.asp?idArtista=258https://www.catalogodasartes.com.br/Lista_Obras_Biografia_Artista.asp?idArtista=258
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