Três séculos e meio separam os maiores poetas da literatura portuguesa – o renascentista Luís de Camões (1524-1580) e Fernando Pessoa (1888-1935), introdutor do Modernismo em Portugal.
No entanto, a magnitude de suas obras lhes reservou um repouso comum no Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa. Não existem indícios comprovados da sexualidade de Pessoa,apesar de ter escrito belos poemas homoeróticos em inglês, sua segunda língua.
Jamais se casou embora tenha mantido um único romance epistolar em duas etapas: dois beijos em oito meses e, dez anos depois, alguns telefonemas durante 3 meses.
Frequentava o círculo transgressor, composto pelos amigos literatos e artistas e deixou 25.543 textos manuscritos e datilografados.
Desde criança inventava alter-egos - os heterônimos - cada um com uma história pessoal e personalidade definida.
Todos os heterônimos (oitenta e seis) possuíam um mapa astral feito pelo próprio Pessoa que, em virtude de dificuldades financeiras, chegou a pensar em ganhar a vida como astrólogo.
Em 1928, trabalhando como redator em propaganda, fez polêmica campanha de lançamento da Coca Cola, responsável pela interdição do produto em Portugal.
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Fernando Antonio Nogueira Pessoa, filho de Joaquim de Seabra Pessoa e de Maria Madalena Pinheiro Nogueira nasceu e morreu em Lisboa.
Órfão de pai aos 5, tendo a mãe se casado outra vez, em 1895, com João Miguel Rosa, consul português em Durban.
A nova família mudou-se para a África do Sul onde nasceram seus outros irmãos e irmãs.
Ali, surgiram o primeiro heterônimo (Chevalier de Pas) e o primeiro poema, dedicado à mãe.
Toda sua formação básica foi em inglês, influenciada por Shakespeare e John Milton.
Aos 17 anos,Pessoa voltou definitivamente para Portugal para ingressar na Universidade, mas, uma greve dos universitários, encerrou suas ambições.
Nunca foi além de Sintra e Cascais, nos arredores de Lisboa, e fez apenas uma única viagem ao interior de seu país.
Em 1908, começou a trabalhar para firmas comerciais como correspondente e alugou um quarto para morar sozinho.
A Editora Ibis
A morte da avó paterna lhe rendeu uma pequena soma em dinheiro que foi aplicada num projeto malogrado: a Editora Ibis. Tinha 20 anos e já estava falido.
Entre 1912 e 1915, quando o Modernismo dava seus primeiros passos em Portugal, o poeta era crítico literário das revistas 'Águia' - que fazia a apologia da Renascença Portuguesa - e 'Orpheu' - que congregava o grupo artístico mais importante da época: Alfredo Pedro Guisado, Armando Cortes Rodrigues, Mario de Sá Carneiro, Santa Rita Pintor, José Pacheco e Almada Negreiros, entre outros
Em 1918, a publicação do longo poema 'Antinous' (no mais refinado inglês) juntamente com os 35 Sonnets provocou questionamentos sobre sua sexualidade.
Escândalo nas Letras
Um verdadeiro escândalo foi desencadeado em 1915 com a publicação de O Marinheiro e Chuva Oblíqua e, como Alvaro de Campos, da Ode Triunfal e Ode Marítima, poesias consideradas homoeróticas.
Com apenas dois números publicados, a 'Revista Orpheu' fez o Modernismo chegar a Portugal e agitou a opinião pública durante meses. Nesta época, Pessoa estreita as relações com aquele que foi seu maior amigo: Mario de Sá Carneiro, que logo viajaria para estudar na Sorbonne, em Paris
A mínima convivência era compensada por uma frenética troca de correspondência. Pouco tempo depois, Sá Carneiro se suicidou, deixando um bilhete de adeus para o amigo.
Heterônimos
O gênio multifacetado de Pessoa já havia criado alguns heterônimos fixos:
*Álvaro de Campos, engenheiro naval e poeta modernista, autor da Ode Marítima, Tabacaria e dos mais chocantes poemas de Pessoa
*Ricardo Reis,um médico monarquista e conservador exilado no Brasil que 'morreu' em 1919, autor de pequenas odes
* Alberto Caeiro, falso naïf e anti - intelectual, que escrevia sobre as coisas óbvias da vida
*Bernardo Soares,contabilista,autor do Livro do Desassossego, mistura de aforismos, ensaios, sonhos e ficção que, publicado 50 anos depois de sua morte, trouxe-lhe a definitiva consagração mundial.
Estes alter-egos continuam sendo estudados por alguns psicanalistas, que os consideram 'manifestação esquizofrênica'. Mas, por outro lado, lindamente arrumada em formato de arte.
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A saudade da convivência com Sá Carneiro e o fechamento da revista Orpheu mergulharam Pessoa na maior solidão de sua vida.
Durante o dia trabalhava como modesto escriturário e tradutor, à noite bebia e fazia poesia publicada em algumas revistas literárias, mas sem a menor repercussão.
Ophelia
Neste deserto de emoção apareceu uma brisa, na forma de primeira e única mulher que povoou sua vida sentimental - Ophelia Queiroz, 19 anos, igualmente funcionária do comércio.
O romance, na primeira fase, durou poucos meses e, nas cartas,Pessoa começava a tratá-la como uma criancinha.
Todos os críticos e estudiosos estão de acordo que este tom infantil não é inocente. Ophelia entra no jogo da 'infantilidade perversa' e da dupla personalidade, recebendo e respondendo cartas em que Álvaro de Campos a adverte que Fernando Pessoa não deveria ser levado a sério.
A mudança de Ophelia para o outro lado da Cidade, a morte do padrasto e a volta da mãe para Lisboa somados ao estado dos nervos do poeta, que se reconhece muito doente, arrefecem o pequeno entusiasmo que impulsionava a relação e, em 29 de novembro de 1920, uma lúcida e cruel mensagem encerra o namoro.
Estranho amor
Dez anos depois aconteceu uma retomada, agora usando também o recurso da voz: já existiam telefones em Portugal.
A última carta de Fernando Pessoa a Ofélia Queiroz é datada de 𝟏𝟏 𝐝𝐞 𝐣𝐚𝐧𝐞𝐢𝐫𝐨 𝐝𝐞 𝟏𝟗𝟑𝟎, marcando o fim da segunda e última fase da sua relação amorosa.
Nesta carta, Pessoa junta o 𝑃𝑜𝑒𝑚𝑎 𝑃𝑖𝑎𝑙, depois de obtida a devida autorização de Álvaro de Campos, o heterônimo que se intrometeu no seu namoro com Ofélia.
Bebé:
Obtida a devida autorização do snr. eng. Álvaro de Campos, mando-lhe o poema que escrevi entre as estações da Casa Branca e Barreiro A, terminando a inspiração, entretanto, na Moita.
Este poema deve ser lido de noite e num quarto sem luz. Também, devidamente aproveitado, serve para fazer papelotes para as bonecas de trapo, para tapar as fechaduras contra o frio, os olhares e as chaves, e para tirar medidas para sapatos a pés que não tenham mais comprimento que o papel.
Creio que estão feitas todas as recomendações para o uso. Não é preciso agitar antes de usar.
Até logo. Ibis
Epilogo :´Apesar de ter uma cabeça aberta demais para a época, sempre achei que a Ophelia deve ter ficado estupefacta com o final do romance...
Ele a procurou dez anos depois, coitada. e a deixou outra vez.
Ophelia usou o futuro e batidíssimo "vida que segue" e casou com um alto funcionário dos Correios, olha só que ironia da vida.
Uma ironia poética e dolorosamente cotidiana para quem viveu um romance epistolar com um dos maiores nomes da literatura — e acabou encontrando o destino nos carimbos e rotinas das correspondências reais.
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Pessoa faleceu em 1935 e foi inicialmente sepultado no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa.
Seus restos mortais estiveram no Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa, ao lado do túmulo de Camões.
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"A grande mudança ocorreu precisamente 50 anos após a sua morte, em 1985. Foi nesse ano que o escultor português Lagoa Henriques projetou o monumento funerário que receberia os restos mortais.
Embora o monumento tenha sido concebido e o processo iniciado em 1985 para marcar o cinquentenário de sua morte, a cerimônia oficial de traslado para o seu destino final acabou ocorrendo em 13 de junho de 1988, data exata do centenário de nascimento do poeta. "( texto em itálico fonte IA GEMINI)
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