sábado, 13 de maio de 2017

Hay Dia das Mães ? Soy contra!

 

 

Maternity   Gustav KLIMT

Por focar em cheio   o consumo de bens materiais em lugar de privilegiar ternura e carinho,o  Dia das Mães,no Brasil, é considerado pelo comércio um “ Natal em Maio” e  gera mirabolante frenesi  filial. 
Diariamente,fico perplexa com os anúncios de supermercado que oferecem costelinha suína,batata lavada, sabão em pó e amaciante,drumete-asinha de frango- e outros quetais- utilizando o apelo emocional gerado pela data.
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Ano após ano,de 1º de janeiro a 31 de dezembro, procuro ser a mãe presente e amiga de um filho de quem muito me orgulho, de uma filha  que seria também o orgulho de qualquer mãe- e é mãe dedicada - e adoro minha neta.
Penso que, do outro lado do balcão, não fui das piores: filha única, cuidei da Dona Anna com toda fidelidade e amor, na saúde frágil e na doença final, na alegria pouca e nas dores muitas, até que a morte nos separou, por enquanto.
Tenho certificado virtual ISO 9001 na categoria" nora", avalizado pelas insuspeitadas declarações de uma sogra que era implacável nos julgamentos.
E, otimista, ouso acreditar que todos os ex e atuais genros poderiam dar depoimentos favoráveis.
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Nada melhor para cutucar as dores do passado remoto do que uma boa data comemorativa centrada nas figuras das Veneráveis Matriarcas.
Heleninha, minha colega de curso primário, era órfã desde bebê e sobrinha da dedicada e incansável Tia Célia que substituía muito bem a irmã falecida.

Nas festas do Grupo Escolar, as mestras entregavam todo ano à pobre criança uma rosa branca, enquanto os demais alunos, reconfortados possuidores do abrigo dos regaços maternos, iam para casa levando, triunfantes, uma rosa vermelha - garantia de proteção e de segurança. Tremenda sacanagem!
Acho que em solidariedade à Heleninha começou o meu horror pelas emoções com data marcada.
 Meu terapeuta levantou, uma vez, a seguinte instigante questão: por que o Dia das Mães me afeta tanto, a ponto de (quando cito) ser sempre precedido do adjetivo famigerado ? Porque famigerado quer dizer que tem fama (boa ou má) e no meu caso específico, tem má fama, mau astral, dia ruim e de atmosfera pesada, que mexe ao mesmo tempo com dores abissais e sentimentos emergentes.
Mãe não é, necessariamente, sinônimo de abnegação, renúncia e despojamento. 
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Vide o caso notório de Brigitte Bardot, hoje setentona, mas que ainda é capaz de ir ao fim do mundo para salvar da extinção um mico leão dourado e compreendo que alguém tem que fazer esse trabalho.
 Dei uma repassada na autobiografia "Initiales BB" (Éditions Grasset  Fasquelle, 1996) para não correr o risco de ser injusta e mal informada.
         Ali, ela chama o filho Nicholas (que teve com Jacques Charrier) de "um câncer que foi extirpado" e  assume que largou o infante de lado e dedicou-se aos animais irracionais.
E vide semelhantes episódios anônimos de mães displicentes e não amorosas, presentes em todas as famílias. Existem as que vendem e as  que jogam seus bebês no lixo,por pobreza extrema ou mesmo vergonha.

Também merecem registro no dia:

* as mães que perderam seus filhos para a “indesejada das gentes” por doença, acidente, bala perdida,suicídio ou para a vida mesmo: aí estão o tráfico de drogas, os vícios incontroláveis.
* os filhos que perderam suas mães
*as frustrações das potenciais mães - biologicamente incapacitadas para a reprodução - que se submetem a qualquer coisa para engravidar e, muitas vezes, nem conseguem.
*a angústia das fisicamente aptas a conceber daqui a um minuto, mas que escolhem ( ou precisam) abortar e, sendo católicas, além do trauma, ainda enxergam o cutelo da Igreja lhes apontando direto a porta do inferno.
* mães presidiárias e as mães de presidiários nas casas de detenção e delegacias lotadas , aguardando julgamentos.
*as que ousam desobedecer leis ainda caducas e, corajosamente, usam a “pílula do dia seguinte” e as que guardam o cordão umbilical de seus bebês, porque melhor prevenir que remediar.
* as doadoras anônimas de óvulos que permitem o milagre da fecundidade.
*as mães adolescentes, que perdem seu futuro por falta de informação e de cuidado.
*as mães moradoras de rua que nada mais que um leite ralo pela desnutrição podem oferecer aos seus pobres frutos.
* as mães lésbicas que lutam por ou perderam a guarda de seus meninos e meninas porque ousaram pensar diferente.

*os casais formados por duas mulheres que desejam - mas nem sempre conseguem - adotar uma criança órfã ou uma abandonada porque a sociedade hipócrita acha que vai fazer mal à cabeça dela ter duas mães em lugar de uma só.

Dia de entortar cabeças

Toda essa parafernália emocional que entorta muitas cabeças( a minha inclusa)se originou
quando a norte-americana Anna Jarvis, em 1910, começou sua cruzada no sentido de criar um dia em que todas as crianças se lembrassem e homenageassem suas mães, fortalecendo os laços familiares.
E, por tabela, cumprimentou com o chapéu dos outros, homenageando sua mãe,falecida naquele ano.
Em 26 de abril de 1910, o governador de Virgínia Ocidental, William E. Glasscock, incorporou o
Dia das Mães ao calendário de datas comemorativas daquele estado e, em 1914, a celebração foi unificada nos Estados Unidos, sendo comemorado sempre no segundo domingo de maio.
Em pouco tempo, mais de 40 países e suas associacões comerciais em todas as cidades adotaram a idéia.

Natal em Maio  
 Marcar um dia para o comércio faturar explorando as neuroses é uma tristeza mas, além da necessidade de lucrar na sociedade de consumo e das paranóias particulares, não se pode fugir do coletivo nem atravessar o calendário.
Até eu mesma reconheço, sendo tão contra a overdose maternal, de vez em quando é fatal a entrada no clima e sempre acontece um jantarzinho aqui em casa.

O fato consumado é que à meia noite de domingo para segunda vira-se a página e, aleluia!, só daqui a um ano a maluquice recomeça para as  Cinderelas por um dia nas filas dos restaurantes lotados e com a prole puta da vida por ter que participar do mico.

"Falo de cadeira",literalmente,porque já fiz parte da produção de um lance  desses em restaurante de shopping da zona norte do Rio,para assessorar e acompanhar minha filha que era responsável pelo  evento, circulando entre as mães sorteadas pela emissora de rádio.
Assim, matamos dois coelhos de uma só cajadada e pude validar minha nem sempre compreendida  opinião.

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