quinta-feira, 2 de junho de 2016

É muito punk!




Quarenta anos da guilhotina musical que não livrou nenhuma cabeça

Punk, em gíria norte-americana, significava uma pessoa revoltada, sem valor, brutal e turbulenta.


Surgiu, pela primeira vez, nos textos do crítico de rock Lester Bangs e, mais tarde, nos versos da canção de Frank Zappa 'Flower Punk', do álbum de 1967 'We’re Only in It for the Money'







Na Inglaterra, o criativo David Bowie - com seu espírito livre e atitudes artísticas audaciosas - foi fundamental para lançar as bases da música punk com o album 'The Rise and Fall of Ziggy Stardust' (1972). Em 1976, a expressão ficou definitivamente consagrada com a edição da revista Punk Magazine, dedicada ao público sintonizado com esta visão anarquista.


O que é uma música punk?


Uma canção do 'Sex Pistols' , por exemplo, é baseada em três acordes de guitarra tocados em cima de uma melodia simples, esquema que Elvis Presley não abominaria.

Apesar do caráter inovador, a música punk é uma espécie de retorno às raízes do rock'nroll, da forma como foi difundido nos anos 50.

Os grupos punk usaram a massa bruta e uma atitude agressiva para reagir à música cerebral de Pink Floyd, Genesis e outros nomes do rock progressivo.Este som, que se articulava em pesquisas sonoras formais, era considerado muito 'cabeça' para o que se passava em redor, na vida diária.

Os punks se aproximavam dos primeiros roqueiros, acrescentando um certo radicalismo no plano musical e no sócio-antropológico.

Eram as guitarras gritantes e roupas rasgadas, cabelos coloridos em forma de espinhos, tatuagens, piercing e apologia da revolta e do niilismo ('No Future', do Sex Pistols)



A guilhotina punk não livrava a cabeça de ninguém: governo, família, burguesia, crítica musical e artística e qualquer outra forma de instituição.



Esta postura transgressora falou ao coração de uma geração que aspirava mais liberdade, reconhecimento e independência Sementes O final da década de 60, foi marcado por um movimento contra a ordem social estabelecida no Ocidente desde o final da 2a guerra mundial, através da contra-cultura sinalizadora de desejos radicais de mudança.



Nos Estados Unidos, acompanhando a tendência, uma nova formação aparecia: as garage bands (tradução literal: bandas de garagem) calcada nos sons selvagens vindos da British Invasion dos grupos 'The Who', 'Kinks', 'Them'e os 'Rolling Stones'.



Segundo alguns criticos musicais, o resultado final era violento e a técnica muito superficial.Apesar das suas limitações, este som entusiasmou uma geração ainda meio hipnotizada pelo incenso, batas, cabelões, saias indianas e cítaras, do movimento hippie.



As bandas desta fase: 'Blues Magoos', 'Shadows of Knight', 'Electric Prunes' e 'Question Mark & The Mysterians' - tiveram vida curta, mas ficaram eternizadas na compilação Nuggets (pepitas de ouro), organizada pelo jornalista Lenny Kaye Unidos por angústias artísticas distintas, mas com desejo comum de mudar o paradigma, Iggy Pop, Andy Warhol e Lou Reed foram considerados os pais da contra-cultura.

Os grupos 'MC5', 'Stooges'(de Iggy Pop), 'Velvet Underground' e Neil Young colaboraram com o 'mau exemplo'de vida desregrada e palavras de ordem niilistas servindo como sementes que germinariam num futuro próximo como música punk.

Grandes nomes do punk nos Estados Unidos
O nome dos 'Ramones'” com suas performances teatrais, mau humor e revolta ilustrados por

visual kitsch - é imediatamente colado ao do movimento punk. Assim como o 'Suicide', que bombava o Mercer Art Center com atuações ensandecidas.



Em torno de 1975 - quando aconteceu a explosão do movimento na mídia (os críticos usavam o termo arty para nomear esta vanguarda) - as performances de Richard Hell, Johnny Thunders ou Alan Vega nos clubes Max's Kansas City e CBGB’s e as bandas 'Blondie', a romântica Patti Smith e o 'Talking Heads' atraíam fãs siderados.O punk nos Estados Unidos - considerado por alguns uma anti-música - ficou na história da música do século XX como resposta aos que estavam ultrapassando certos limites no rock progressivo, com seus solos intermináveis.
Mas foi na Inglatera que o Punk assumiu caráter de movimento político e social.


O Punk na Inglaterra


Em 1977, os pioneiros formadores de opinião estavam sintonizados com o que acontecia na Inglaterra: uma situação de muita injustiça social com jovens perambulando pelas ruas, sem esperanças e sem emprego.E foi nesse contexto que o punk, de uma tendência musical, acabou se transformando num movimento de protesto contra a hipocrisia da sociedade e o conservadorismo representado pelas figuras da rainha e da família real.

'Never Mind the Bollocks', do 'Sex Pistols', é considerado uma espécie de manifesto do movimento, logo seguido pela explosão do 'Buzzcocks' e do 'The Clash'.





O 'The Clash' - eterno rival do 'Sex Pistols' acrescentava às canções um engajamento político até então incomum.A segunda geracão do punk inglês apresentava talentos como 'Generation X' (de onde saiu Billy Idol), 'UK Subs', 'The Ruts', 'Enfin', 'The Jam', 'The Stranglers', 'Wire' e 'Siouxsie and the Banshees'


Neste contexto, também se destacava Leigh Bowery proprietário do Taboo, em Leicester Square(foto). Inaugurado em 1984, ali se reuniam amigos clubbers como Vivienne Westwood, Jean Paul Gaultier, John Galliano, Pierre et Gilles, Boy George, Marc Almond, Princess Julia, Rachel Auburn, Nick Knight e muitas outras figuras relevantes da arte contemporânea.



O clube se tornou famoso pela audácia de seus propósitos (lema 'é proibido proibir') e de seu dono, a figura mais excêntrica e mais polêmica da cena noturna londrina.


O Punk no Brasil


Na cauda do cometa da abertura e da anistia política, o movimento chegou meio atrasado ao Brasil nos anos 80, quando ainda existia a censura, mas sem o vigor dos 'anos de chumbo'. Foi mais uma das formas de contestar o regime autoritário que já durava quase duas décadas.
Em 1978, algumas bandas surgiam em São Paulo: 'AI-5'(denominação cheia de ironia contra o ato institucional de 1968, que liquidou com as liberdades individuais e oficializou a censura), 'Lixomania', 'Anarkólatras' e 'Restos do Nada'. Em 1982, sai o primeiro disco punk brasileiro: 'Grito Suburbano', onde estavam os trabalhos dos grupos 'Os Inocentes', 'Cólera'(foto) e Olho Seco'. 

O clube Na Palm recebia concentrava as bandas e seus seguidores.


O grande evento punk realizado no Brasil foi o Festival 'O começo do fim do mundo', (organizado pelo escritor e jornalista Antonio Bivar e Caligare, guitarrista dos 'Inocentes') no Sesc Pompéia (SP) em 1982, que terminou em conflito generalizado e teve ampla cobertura da imprensa.

 Foi divulgado um manifesto onde os punks explicavam:

'Nosso movimento surgiu numa época de crise e desemprego com tal força que logo se espalhou pelo mundo, e cada um, atento á sua realidade, adotou esse tipo de protesto punk'.
A influência da vertente paulista inspirou a formação de grupos e nomes como 'IRA!', 'RPM', 'Legião Urbana' (que veio dos punks de Brasília), 'Titãs' e Arrigo Barnabé. Arnaldo Antunes e Paulo Miklos, oriundos da 'Banda Performática', depois se juntaram aos 'Titãs'.


Frutos



Aparentemente saído do nada, mas trazendo uma clara mensagem, o movimento punk, teve como consequência principal possibiltar o surgimento de muitas vocações.



Proliferou como epidemia,o que foi, contraditoriamente, a causa primeira de seu desgaste.

Muitas 'sub-correntes' foram atraídas pelas gravadoras, na intenção de fazer dinheiro com a popularidade efêmera.

Grupos punks como 'Joy Division'”, 'Wire', 'Siouxsie and the Banshees', 'Bauhaus” et “The Cure' passaram a elaborar um som mais suave e deram origem à New Wave Music. *********************************************************************************************

Nenhum comentário: