terça-feira, 31 de março de 2015

Arthur Bispo do Rosário




  

 
Artista veste o manto "Semblantes"    Foto :Walter Firmo







Em 1989,eu trabalhava para ao Departamento Cultural da UERJ,então sob a direção do Professor George Kornis, raro exemplo de gestor público desburocratizado e desburocratizante,grande colecionador de arte,alma sensível e ser humano da melhor qualidade.
Pensávamos em realizar uma bela exposição para comemorar os 80 anos de Arthur Bispo do Rosário.E estávamos tendo grandes dificuldades em convencer o artista a disponibilizar suas obras pois, dizia ele,”tudo era para Deus e,não,para a Humanidade”
Foi quando nos chegou a notícia da sua morte, em 5 de julho.
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Sergipano ,descendente de escravos africanos, nascido em 1909 em Japaratuba,Arthur Bispo do Rosário foi marinheiro e lutador de box na juventude e,mais tarde, trabalhou no bairro de Botafogo, como caseiro no palacete de importante família carioca. 
Numa noite de dezembro de 1938,acordou com alucinações e comunicou aos patrões que estava saindo porque precisava ir `a Igreja da Candelária,no centro da cidade.
Perambulou pelas ruas, até subir o pequeno monte que termina no Mosteiro de São Bento,onde avisou aos monges quee era um enviado de Deus e queria cumprir a missão de julgar vivos e mortos.
Dali saiu direto para a delegacia da Praça Mauá e foi fichado como “negro sem documentos e indigente” Próxima parada:o Hospício Pedro II (o hospício da Praia Vermelha), primeira instituição oficial desse tipo no país, inaugurada em 1852. Em seguida foi transferido para a Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá,diagnosticado como "esquizofrênico-paranóico" 
Virou um número:paciente 01662 e permaneceu internado por mais de 50 anos.
Uma observação:li no folder da exposição sobre Bispo do Rosário,por ocasião dos 500 anos do descobrimento do Brasil, no Paço Imperial (2000) que ,nos anos 20 ,um nudista, cidadão estrangeiro e com outra mentalidade nadava em Copacabana-então uma praia quase selvagem,quando surgiu uma viatura da polícia.Preso, o infeliz passou o resto da vida na Juliano Moreira.
Esses eram os critérios da terapia psicanalítica aqui na terra, até surgir um anjo-na figura de uma psiquiatra chamada Dra. Nise da Silveira e uma instituição criada por ela,o"Museu da Imagem do Inconsciente".

Dra Nise foi( 1906 — 1999) "
uma renomada médica psiquiatra brasileira, aluna de Carl Jung.Dedicou sua vida à psiquiatria e manifestou-se radicalmente contrária às formas agressivas de tratamento de sua época, tais como o confinamento em hospitais psiquiátricos, eletrochoque, insulinoterapia e lobotomia" (este pedacinho tem como fonte a Wikipedia)
O louco se torna vanguardista A partir de 1960, Bispo do Rosário passou recolher objetos do lixo e da sucata da Colônia e, em lembrança de seus tempos de Marinha, começou a produzir estandartes,faixas,objetos domésticos (colheres,pratos,escovas de dentes) e o famoso Manto da Apresentação, que iria vestir no dia do Juízo Fina.
Arte de um doente mental para o qual -achavam- não havia cura,foi comparada `a de Marcel Duchamps e eu até -pedindo licença aos críticos- estou aqui teclando e pensando em Roy Lichtenstein e seu slogan da pop art “o uso dado ao desprezado” 

Porque tivemos acesso, via UERJ, a algumas peças do artista,onde ele remodelava, com grande preocupacão estética, os restos e dejetos lançados ao lixo, mergulhando no conceito de desperdício na sociedade de consumo que viria a desembocar na atual mentalidade ecológica.
As palavras também eram importantes na obra de Bispo, que utilizava significantes e significados sem ter a menor noção do que era semiologia,nem Roland Barthes e,muito menos, Saussure. Hoje, existe um museu que leva seu nome, suas obras são extremamente bem cotadas nas bolsa de artes no Brasil e exterior( Borrachas",Roda da Fortuna" e "Carrossel") e atingiu o que a gente aqui considera a glória: o centenário de seu nascimento e o conjunto de obra serviram como enredo de uma Escola de Samba em Campinas,SP, no carnaval de 2009. 
Na pequena Japaratuba.terra natal,há uma estátua na entrada da cidade e  o documentário "Senhor dos Labirintos",baseado no livro homônimo de Luciana Hidalgo,editado pela Rocco, em 1996 ganhou prêmio no Festival do Rio em 2010.
Um excluído da sociedade que se recusava a receber os tratamentos bárbaros de então (eletrochoques, por exemplo) transformou-se em referência da Arte Contemporânea.
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