terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Trilogia das Injustiças- Parte 1- O caso Dreyfus


Três  textos sobre casos rumorosos de injustiça e violação de direitos humanos e as obras de arte movidas pela indignacão 
que as pessoas,então, sentiram.




Caso Dreyfus -erro judiciário + antissemitismo

O julgamento e condenação de Alfred Drefus,brilhante oficial de artilharia do exército francês que estava servindo no Estado Maior, deram origem a uma comoção que dividiu o país e  repercutiu internacionalmente no final do século 19 e começo do século 20. 

A acusão de alta traição do judeu de origem alsaciana naturalizado francês (a França perdeu o território da Alsácia-Lorena em consequência da derrota para a Prússia),terminou com sentença de humilhante degradação pública e de  prisão perpétua,cumprida  na Ilha do Diabo,na Guiana Francesa. 

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Terminada a  Guerra Franco-Prussiana de 1870, o serviço secreto francês disfarçado sob o nome de "Seção de Estatística"continuou a funcionar,meio na clandestinidade,liderado pelo tenente coronel  Jean Conrad Sandherr.
A França estava frágil frente ao poderio do Kaiser e enfrentava uma campanha aberta pela exclusão dos judeus nas forças armadas.

O embaixador alemão,Conde Von Münster, deu sua palavra de honra para garantir que seus diplomatas não iriam corromper policiais e funcionários franceses.
Mas era de conhecimento público que o adido Maximilian von Schwartzkoppen, sem o conhecimento do embaixador, continuou a pagar espiões e manteve ligação direta com o Ministério da Guerra, em Berlim. 

24 de setembro de 1894 

Para manter o controle do que se passava em volta da "Seção de Estatística", contratou Marie Bastian,uma alsaciana que falava alemão fluente ,mulher de um soldado acidentado  da Guarda Republicana, "estúpida, vulgar, totalmente analfabeta  (como? se lia os papéis que recolhia?) com cerca de 40 anos de idade," para, supostamente fazer serviços de limpeza no escritório do adido militar alemão.


Sua missão principal era recolher todos os papéis rasgados ou queimados que encontrava nas cestas de lixo ou na lareira do escritório de Schwartzkoppen.

Marie guardava este material num saco e, periodicamente, levava ao conhecimento do embaixador.  
Um  papel rasgado em quatro pedaços que se encaixavam.contendo anotações  altamente confidenciais, provava que a segurança nacional estava em perigo.  

Essa é a versão oficial que foi aceita durante muito tempo mas,nas investigações posteriores,a carta-ou "borderô"como passou à História- teria sido encontrada intacta na caixa de correio do coronel Schwartzkoppen, na guarita do porteiro da embaixada. 

E foi trazida pelo agente Brucker que tinha sido intermediário entre  Marie Bastian e a contra-inteligência francesa.

Bode Expiatório

As informações contidas no borderô diziam respeito a material bélico  que seria enviado às manobras na fronteira alemã, conteúdo de um certo "manual de tiro", modificações nas formações na Artilharia e sobre a preparação de uma expedição para invadir Madagascar.
 E terminava (mais ou menos) assim: 


"Este documento é extremamente difícil de ser conseguido e eu  só posso tê-lo à minha disposição por apenas poucos dias.
O ministro da guerra distribuiu um certo número de cópias entre as tropase os oficiais são responsáveis por elas.
Cada comandante  que tiver uma cópia, deve  devolvê-la após as manobras.
Portanto, se você vai utilizar a partir dele o que quer que venha a lhe interessar, me devolva que vou conseguir outra cópia.

A menos que você prefira que eu copie as informacões  na íntegra e lhe mando.
Dreyfus réu 
Estou partindo para as manobras.
-D. "

Uma perícia encomendada pelo Estado Maior Francês e executada    pelo Comandante Du Paty –grafólogo amador-concluiu que, apesar de algumas diferenças, havia suficiente semelhança com a 
caligrafia de Dreyfus, o que justificava uma perícia legal.

A conclusão foi que o informante do adido militar alemão era um 
oficial francês e, sobretudo,devido ao tom das diversas informações contidas no "borderô", um oficial do Estado Maior. 

Nada justificava essa última hipótese. Ao contrário, muitas incorreções gramaticais,a dificuldade do autor obter o  "manual de tiro"- que era distribuído gratuitamente aos oficiais de artilharia- e a grande importância que o informante se atribuiu  apontam para o contrário: o suspeito não poderia pertencer ao Estado Maior. 


Os oficiais que periciaram o documento, inexperientes e preconceituosos,confundiram uma vaga semelhança da letra de Dreyfus com a do borderô e partiram para uma conclusão precipitada de culpa.

Julgamento,pena e humilhação pública-linha do tempo




Depois de um julgamento feito a partir de quase nada, Dreyfus é degradado e condenado a prisão perpétua e trabalhos forçados.

Durante a humilhação pública em que foram arrancadas a patente e medalhas da farda,gritava  sua inocência .

quase um julgamento feito a partir do zero, Dreyfus é degradado e condenado a trabalhos forçados por toda a vida.

Durante 1895, o verdadeiro culpado, comandante Esterhazy é desmascarado. Apesar da esmagadora evidência de sua culpa, ele foi absolvido.
Embarque para a Ilha do Diabo

O caso suscitou paixões e tornou-se público após o escritor Emile Zola ter publicado no jornal L'Aurore uma carta aberta ao Presidente da República, o famoso documento J'accuse. ( 3/1/1898 -reprodução abaixo)

Jornalistas como Georges Clemenceau, escritores como Charles Péguy, Anatole France e, especialmente, Zola assumiram a defesa de Dreyfus.

Outros detonaram uma campanha extremamente violenta contra , dado o contexto anti-semita e nacionalista que defendiam 
No entanto, novas revelações e o suicídio de um dos oficiais mais ferozes contra  Dreyfus (tenente-coronel Henry, ele-sim- fazia parte do complô que incriminou o capitão) demonstram um erro judiciário.
O Caso Dreyfus é levado ao Conselho de Guerra Rennes que refaz a sentença, e condena o ex-capitão (com circunstâncias atenuantes) a "apenas" dez anos de prisão.


A fim de acalmar os ânimos, 10 dias após a segunda condenação, o Presidente da República, Emile Loubet, dá graça por "razões de saúde".O prisioneiro apodrecia na prisão, alucinado e sem a menor idéia do que sua prisão havia causado.

Este não foi o reconhecimento da inocência de Dreyfus, mas  a oportunidade que lhe foi dada para continuar a lutar por sua reabilitação.

5 de março de 1904, o Tribunal de Cassação, após a descoberta de falsa  prova introduzida no registro, decide acolher  pedido de novo julgamento.

Em 12 de julho de 1906,sai o veredicto  favorável do Conselho Supremo de Guerra, em Rennes, e no dia seguinte a votação pelo Parlamento de uma lei restabelecendo Dreyfus no exército.

Em 21 de julho de 1906, 12 anos depois de sua condenação, Dreyfus recebe a Legião de Honra com o posto de comandante.

 Com a opinião pública da  França dividida, o escritor Emile Zola publicou no jornal L'Aurore uma carta aberta ao Presidente da República, o famoso "J'accuse"


Jornalistas como Georges Clemenceau, escritores como Charles Péguy, Anatole France e, especialmente, Zola assumiram a defesa de Dreyfus.

Outros fizeram campanha  contra extremamente violenta,pois o judeu Dreyfus seria o culpado ideal devido  ao contexto anti-semita e nacionalista vigente.

Novas revelações e o suicídio do tenente-coronel Henry mostram o  erro judiciário.
O Caso Dreyfus volta ao  Conselho de Guerra  em Rennes e reforma a sentença :com circunstâncias atenuantes : agora "apenas" dez anos de prisão. 

A fim de acalmar os espíritos, 10 dias após a segunda condenação, o Presidente da República, Emile Loubet, dá um indulto  por "razões de saúde"do prisioneiro.

Não é o reconhecimento da inocência de Dreyfus, claro,mas a oportunidade que lhe foi dada para continuar a lutar por sua reabilitação.
5 de março de 1904: o Tribunal de Cassação após a descoberta de falsas informações aprova   pedido de novo julgamento.
 12 de julho de 1906 :  sai o veredicto Conselho de Guerra, em Rennes e ,no dia seguinte,o Parlamento vota  uma lei reintegrando Dreyfus no exército.

Em 21 de julho de 1906, 12 anos depois de sua condenação, Dreyfus recebe a Legião de Honra com o posto de comandante


 Num julgamento feito a partir do zero, Dreyfus é degradado e condenado a trabalhos forçados por toda a vida.

Durante 1895, o verdadeiro culpado, comandante Esterhazy é desmascarado. Considera-se, e, apesar da esmagadora evidência de sua culpa, ele foi absolvido.

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A campanha extremamente violenta, dado o contexto anti-semita e nacionalista, forneceu uma culpado ideal, uma vez que o réu era alsaciano judeu.  

No entanto, novas revelações e o suicídio de um dos oficiais mais ferozes contra Dreyfus (tenente-coronel Henry) conduzem a um erro judiciário.

O dossiê  é mandado  ao Conselho de Guerra em  Rennes  que,fazendo a revisão, o condena (com circunstâncias atenuantes) a "apenas" dez anos de prisão.

A fim de acalmar os ânimos, 10 dias após a segunda condenação, o Presidente da República, Emile Loubet, dá graça por "razões de saúde".

Este não é o reconhecimento da inocência de Dreyfus, mas esta é a oportunidade que lhe foi dada para continuar a lutar por sua reabilitação.

5 de março de 1904, o Tribunal de Cassação, após a descoberta de falsa introduzida no registro, admissível diz que o novo pedido de novo julgamento.

Em 12 de julho de 1906, o veredicto Guerra Supremo Conselho Rennes, e no dia seguinte a votação pelo Parlamento de uma lei restabelecendo Dreyfus no exército.

Em 21 de julho de 1906, 12 anos depois de sua condenação, Dreyfus recebe a Legião de Honra com o posto de comandante.

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Algumas das incontáveis repercussões do "affair":


* O Caso Dreyfus teve vários subprodutos:
demonstrou o papel fundamental da imprensa de "fazer a cabeça" da opinião pública;destacou ainda a responsabilidade dos intelectuais, cientistas, escritores, artistas no desenvolvimento de idéias; mostrou que a razão poderia prevalecer sobre o obscurantismo, especialmente na luta contra o racismo 
  
*A Liga dos Direitos Humanos nasceu durante o caso Dreyfus.

 * Rui Barbosa, no Brasil, tomou parte na campanha a favor de Dreyfus escrevendo artigos e editoriais




*L’affaire Dreyfus (peça teatral escrita por Hans Rehfisch eWilhelm Herzog, sob o pseudônimo de René Kestner), em 1931

*Hannah Arendt,filósofa: "As paixões fervorosas, os personagens envolvidos na carta, todas as “dramatis personae” do processo pertencem ao século XIX e não teriam sobrevivido às muitas transformações do século seguinte" .



*J' Accuse! (O Julgamento do Capitão Dreyfus,título no Brasil)   drama biográfico britânico-americano de 1958,dirigido e estrelado por José Ferrer

*No trecho do filme (em  inglês e  legendado) "A Vida de Emile Zola"
a degradação pública de Dreyfus
clique aqui:
https://www.youtube.com/watch?v=2WhF5nVy03g

*Documentário em inglês
aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=YcKnFK3HBvs

  
*A Agência Reuters divulgou em junho de 2014 que "o  diretor Roman Polanski quer fazer um filme na sua Polônia natal sobre o famoso caso Dreyfus se conseguir garantias de que não terá problemas legais derivados de uma condenação por crime sexual nos Estados Unidos em 1977, disseram seus associados.
 Após a Segunda Guerra Mundial ele voltou a Cracóvia, e mais tarde emigrou.
"Roman Polanski cogita filmar na Polônia a respeito do caso Dreyfus”, declarou seu advogado polonês, Jerzy Stachowicz, à Reuters."
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