terça-feira, 16 de setembro de 2014

Rio Comprido- a saudade falou mais alto nos 120 anos da Colombo






"Foi um rio que passou em minha vida e meu coração se deixou levar"
Paulinho da Viola
*****************************************************


 As comemorações 120 anos da Confeitaria Colombo,onde passei incontáveis tardes de minha infância/adolescência (tinha até conta-corrente lá...) esperando que o Avô teminasse de atender seus clientes para que voltássemos juntos para casa, trouxeram de volta saudades imensas.O consultório ficava no predinho de 3 andares, colado na Colombo.
************
Era para o endereço da Avenida Paulo de Frontin, no Rio Comprido-Rio de Janeiro, que chegavam as cartas,telegramas,convites para casamentos,pedidos de empréstimo jamais pagos e jamais cobrados,amigos, amigos dos amigos,parentes,amigos dos parentes ,amigos das empregadas e parentes das empregadas e mais quem viesse.

Todos sempre muito bem acolhidos e considerados;jamais ficavam sem resposta , calor humano e tratamento dentário completo grátis. Casa grande,coração ainda maior. Nunca vi tanta generosidade e tanta solidariedade humana como nos meus queridos e gentis avós maternos.
À fidalguia gaúcha de bem receber somavam seus dotes inigualáveis de despojamento e bom caráter.
 Meu avô, médico pela Faculdade Mackenzie de São Paulo,foi para Filadélfia completar os créditos necessários para se graduar em Odontologia,na época uma especialidade da Medicina. Tendo chegado aos Estados Unidos em plena Revolução Industrial, imagino que sua mente aberta voou até alturas inimagináveis,sendo difícil,com certeza ,se readaptar à pequenina provinciana e esnobe cidadezinha do Rio Grande do Sul,onde a minha avó esperava por 14 anos.Sim, quatorze anos na espera.
Esta temporada no exterior marcou-lhe a alma e ,na volta,nunca mais deve ter sido o mesmo.
 Casou-se com minha avó,creio que só para honrar a palavra dada. Tirando as qualidades do coração, nunca vi duas pessoas tão diversas.Ele ousado e expansivo,ela tímida e tradicional;ele teósofo e arrojado,ela carolíssima e acomodada.
Apesar das diferenças ,ou por causa delas,entendiam-se maravilhosamente:a verdade é que jamais ouvi um aumentar de voz,uma querela,um desentendimento
Lá para eles a relação deve ter sido perfeita pois durou quase 50 anos,após os quais,vítima de leucemia,meu avô morreu em 3 meses,ficando pequenininho como uma criança.
Ele ,que a meus olhos ,era a pessoa mais forte, poderosa e invulnerável do mundo. E imortal.
Durante sua edificante e inesquecível vida entre nós o vovô teve a oportunidade de exercer muito frequentemente ,os papéis que mais lhe agradavam: o de host ,o de gourmand e o de gourmet .
Além da dúzia de moradores fixos,agregados,parentes de passagem hospedados em casa ou no Hotel Paysandu,onde ele "tomava"quartos e patrocinava as estadias,a casa era invadida aos domingos por comensais que vinham participar do almoço.
A função começava na sexta-feira,com as elocubrações sobre o cardápio.Coelho? Codorna? Coelho e codorna? Que tal um cordeirinho? Ou,quem sabe,espetinhos de rins ao bacon?E como acompanhamento?Um suflê de aspargos, talvez,ou corações de alcachofra? Ou tudo isso ao mesmo tempo,uma festa de Babette semanal que eu pude rememorar vendo o filme que me remeteu à infância.
Sábado pela manhã  a peregrinacão em busca do material escolhido para a comilança.Ao Lidador Casa Carvalho,O Rei dos Cabritos,Confeitaria Colombo,Cavé,Lalet,mercadinhos, aviários,tudo era virado ao avesso.
Em seguida a criadagem,a parentela e quem mais tivesse vindo apreciava o inesquecível espetáculo do depenar das aves,do vinha d'alhos,do cronômetro marcando o tempo exato de cozimento de cada legume. 
Essas tarefas eram executadas com a mesma perícia e pelas mesmas mãos competentes que tratavam canais e extraíam sisos inclusos.
Na bancada de mármore cinza,que ficava na copa,minha avó dava sua colaboração para o banquete.Caramelados, compotas de frutas,pudins,mousses,doces de ovos e o famoso pudim de claras. 
Altas horas da noite, acabada a trabalheira ,iam se deitar aliviados e de coração em paz. Podia chegar a infantaria que havia munição suficiente para a batalha.
Domingo ,finalmente ! Enquanto minha avó ia cumprir seu ritual eucarístico diário e após a igualmente sagrada leitura do Diário de Notícias ,do Correio da Manhã e do Diário Carioca, era chegado o grande momento. A cozinha fervia de ansiedade.
As oito bocas do fogão de lenha não davam conta das panelas,caçarolas,frigideiras,conchas, facões,escorredores, raladores de queijo ,coadores,peneiras e mais enorme quantidade de apetrechos.
 Usando tecnologia de ponta,competência culinária e genuína felicidade o banquete saía divino.
Nós,crianças ficávamos numa espécie de anexo da sala de jantar,não por comodismo ou falta de paciência ,mas para que pudéssemos ficar à vontade, sem nenhum adulto enchendo o saco. e controlando o consumo (industrial, diga-se de passagem)de garrafas de guaraná Caçula da Antártica ,Coca Cola,Grapette e Crush ,vindos em engradados do botequim da esquina de Barão de Itapagipe.
Na grande mesa da sala de jantar vinha primeiro o oleado, depois a toalha bordada da Ilha da Madeira, a louça inglesa, os talheres de prata, os copos de cristal e ,então,o momento esperado por todos . meu avô ,na cabeceira da mesa,feliz e realizado,vendo sua tribo reunida. 
No outro fim de semana tudo se repetiria, e no outro, e no outro e mais outro e no outro,até que vovô morreu, sem dívidas mas também sem nada deixar,nem teto próprio para abrigar a viúva porque o casarão era alugado.
Penso nele todos os dias,desde aquele sábado chuvoso e abafado em que nos deixou,mesmo porque sei que ele está muito mais perto do que imagina a nossa vã filosofia. 
Sua valiosíssima herança,pela qual ninguém briga, é o exemplo de dedicação ao próximo e a noção de que bens materiais são apenas bens materiais e,como tal, se esvaem.

E que lá do outro lado é que estão os verdadeiros valores.
*************************************************


*********************************

Nenhum comentário: