domingo, 10 de agosto de 2014

As mães e avós da Plaza de Mayo





 


 História das mães que perderam seus meninos 

Entre 1976 e 1983,durante o sangrento regime militar que se instalou na Argentina, cerca de nove mil pessoas desapareceram. Segundo organismos de direitos humanos,este número sobe a mais de 30 mil. Ao sequestro dos opositores,seguia-se o assassinato.

Aviões partiam lotados de presos , que eram atirados ao Rio da Prata. Sem notícias de seus filhos ,mães desesperadas percorriam delegacias,igrejas e prisões `a procura de um simples sinal de vida. A partir de abril de 1977, todas as quintas-feiras `as 15 .30,as mães de alguns destes desaparecidos começaram a se reunir na Plaza de Mayo em frente `a Casa Rosada, sede do governo.

A Praça foi escolhida como ponto de encontro porque, segundo a líder Hebe de Bonafini, “ lá todas as mães eram iguais,todas haviam percorrido os mesmos caminhos na mesma busca,não havia nenhuma diferença e nenhum tipo de distanciamento”
Começava ali um movimento de protesto e solidariedade unindo estas mães que perderam seus meninos.
 A intenção era sensibilizar o então presidente Jorge Videla,para que ele interviesse no processo e lhes fornecesse notícias dos filhos.Exigiam, ao mesmo tempo, punição para os assassinos.
  
“Os filhos mortos pariram as mães”

 No início eram 14 mães ,mas o grupo se expandiu, chegando a contar com milhares de participantes. Seguindo uma tradição, as mães argentinas guardam algumas fraldas de seus filhos como lembrança.

As Mães da Plaza de Mayo passaram a usa-las,então, como marca registrada.

 Cada mãe portava um pano branco na cabeça com o nome de seu filho desaparecido.
As mães passaram a ser chamadas “loucas da Plaza de Mayo”
Muitas mulheres adoeceram e morreram,foram repudiadas,perseguidas, abandonadas por seus maridos. Em dezembro de 1977,Azucena Villaflor De Vicenti, a primeira líder das mães, foi seqüestrada e assassinada pelos organismos repressivos da ditadura militar.

Durante a Copa do Mundo de 1978,realizada na Argentina,a imprensa internacional que cobria o evento tomou conhecimento da existência da ação das Mães, que a ditadura tentava abafar por todos os meios
Houve o recrudescimento da repressão e,num gesto de coragem e revide, as mães criaram oficialmente sua Associação em 22/8/1979

Novamente o futebol foi usado como anestesia geral: A Argentina sediou o Mondialito de 1980, articulação da ditadura para desviar atenção do problema. Incansáveis, as Mães voltaram `a Praça e criaram seu primeiro boletim .
Nesse momento a opinião pública internacional já estava conscietizada do drama dos desaparecidos. 
Perante a omissão do governo argentino um grupo de apoio foi criado na Holanda.

 Este grupo custeou as despesas de instalação do primeiro escritório da Associação.
 Em 1981 freiras acompanharam as mães num primeiro jejum coletivo de protesto
A Guerra das Malvinas ,em 1982, foi outro momento importante de ação.
As Mães se declararam solidárias com as mães dos soldados argentinos.
Surgiram o primeiro jornal,as equipes de assistência psicológica e jurídica.

“Enquanto houver um só assassino pelas ruas, nossos filhos viverão para condená-lo por nossas bocas.” Hebe de Bonafini.

1985 ficou marcado como o ano da “Marcha das Mãos Dadas”.O movimento foi encampado pela opinião pública no exterior.
Depois, milhares de mãos argentinas se uniram na Avenida de Mayo e na Praça, pressionando o governo a dar uma solução final ao drama.
Uma segunda manifestação comovente,a “Marcha dos Panos Brancos” ajudou a apressar o que foi chamado de “Ponto Final”:nos primeiros meses do Governo Alfonsin começaram a chegar telegramas, dizendo em que cemitérios estavam enterrados os jovens desaparecidos. Algumas receberam restos humanos como se fossem de seus filhos .
As mães se recusaram a aceitar a tortura moral das exumações sem que os assassinos tivessem sido punidos.

 O governo ofereceu ressarcimento econômico e homenagens póstumas.
As mães recusaram o dinheiro e as honras,mas continuaram a luta Em
1986,o grupo se dividiu entre as lideradas por Hebe de Bonafini e a Linha Fundadora, liderada por Maria Adela Gard de Antokoletz.O local que deu nome ao movimento nunca foi abandonado.

O grupo foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz e recebeu muitos outros prêmios “Pela Luta”,”Pela Liberdade” “Pela Justiça”. e é reconhecido, internacionalmente, como uma das principais instituições civis de luta contra os crimes cometidos pelas ditaduras

As Mães e  as Avós da Plaza de Mayo conseguiram localizar crianças, filhos dos jovens mortos, e muitas obtiveram a custódia de seus netos.
Realizam viagens regulares `a Europa para reciclagem e encontros com os grupos de apoio, para priorização das metas a serem cumpridas a cada ano
O Jornal da Associação é traduzido em vários idiomas.
Existem,em muitos países, escolas,praças,ruas que receberam o nome “Madres de Plaza de Mayo” Foram editaram vários livros e 3 Poemários.

Mestrandos e doutorandos de todas as partes do mundo continuam agendando visitas `a Associação para enriquecer suas teses sobre o tema.

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Um comentário:

B.R. disse...

Caríssima Titia,
Em se tratando do grupo surgido - como ressaltado - com o pejorativo apelido de "Locas de La Plaza de Mayo" - cunhado por políticos e saudosistas da ditadura, não poderia deixar de destacar fato recente e de extrema relevância.
Notícia amplamente divulgada, restou comprovado - após exame de DNA - que o músico Ignácio Hurban (36 anos) é, em verdade, Guido Montoya Carlotto - desaparecido na época da ditadura que assolou a Argentina -, neto de Estela de Carlotto, líder do grupo "Avós da Praça de Maio".
Frise-se, por oportuno, que Estela é reconhecida, inclusive, fora de seu país, por conta de sua admirável postura de coragem e luta, na condição de referência na procura da verdade, através de bravura cívica e política.
Bjs.,
B.R.