quinta-feira, 12 de junho de 2014

Ser bailarino no pais do futebol


Mais uma vez -e sempre-para Clara, neta querida e bailarina 

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A beleza dos espetáculos que já aconteram  e que ainda virão, leva a gente a pensar na rigidez do treinamento que enfrentam os profissionais da dança em geral e o preconceito que cerca os bailarinos do sexo masculino, em particular. 

Um pré-adolescente muito querido nosso, comunicou que desejava se matricular numa escola de dança moderna. 

A mãe, esclarecida, mas com medo de brincadeiras de mau gosto, perguntou ao menino se ele "tinha pique para encarar a galera do judô e os amigos da piscina do playground". O desejo ficou adiado, talvez para sempre. 

Em 2008, esteve nas telas o belo filme "Maré, nossa história de amor", dirigido por Lúcia Murat. Um "Romeu e Julieta", dançado e ambientado na Favela da Maré, no Rio. 
Um dos jovens que serve ao tráfico, decide abandonar a ilegalidade para se matricular na escolinha de dança contemporânea patrocinada por uma ONG, onde a Marisa Orth interpreta uma professora. 

A coreografia hip hop não impede que o moço tenha que enfrentar o preconceito do irmão, chefe de uma das facções, que manda providenciar uma bola de futebol, "essa, sim, atividade de homem". 
E outro adeus aos sonhos. 

Ambientado na Inglaterra - berço do futebol- o diretor Stephen Daldry produziu "Billy Elliot", história de um garoto de 11 anos, filho de trabalhador rústico e mineiro em greve, quando Margareth Tachter estava no poder (2000). 
Forçado pelo pai a treinar boxe porque seu melhor amigo é gay, Billy (que tem outra orientação sexual) fica fascinado pelas aulas de ballet que acontecem na mesma academia. 
Assim como no filme brasileiro, é incentivado pela professora a largar o boxe e se dedicar à dança. 

Como é a rotina de um bailarino

Fazer exercício após exercício, observar a disciplina, cumprir horários, cuidar da forma física e da saúde. Embora ser viril, na nossa sociedade, signifique aperfeiçoar a força bruta através de exercícios físicos, há uma conexão estabelecida entre ballet e homossexualidade masculina. 
Durante um jogo de futebol lances agressivos acontecem "carrinhos", entradas duras, socos e pontapés longe da bola. 
Na hora dos gols ou após um lance criativo, os jogadores se abraçam, formam um tipo de bolo humano, inventam coreografias muitas vezes despropositadas. Sem problemas. 
Futebol é jogo de macho, ali vale tudo em termos de gestual.  

Os primeiros tempos 
A dança, em seus primórdios, celebrava a fecundidade feminina. 

Posteriormente, o ballet passou a representar o poder masculino. 
Um site especializado explica que "mais do que nenhuma outra arte,o ballet clássico está diretamente baseado na elegante e fisicamente exigente habilidade da arte marcial de lidar com espadas". 
As posições do ballet clássico vieram das danças da corte francesa (minuetos e gavotas) mais tarde incrementadas com pirouettes, jetés, grand jétés, as numerosas voltas em torno do eixo do corpo e saltos, sempre aplaudidos pela audiência. 
 A aparente barreira da língua francesa - idioma internacional da arte de dançar – torna-se uma porta aberta. 
Em qualquer lugar do planeta, usam-se as mesmas expressões: assemblé, coupé, fouetée, pas couru, pas de bourrée, pas de basque, jeté, arabesque, pas ballotté (sacudido),etc.  

Pequena Cronologia 

O ballet, tal como conhecemos hoje, tem sua certidão de nascimento em 1489 no casamento do Duque de Milão com Isabel de Aragão. 
Catarina de Médicis, entusiasmada, celebrou com ballet seu casamento com Henrique II e, em 1581, mandou produzir um espetáculo chamado " Ballet Cômico da Rainha" - cerca de seis horas de duração - para festejar o matrimônio da irmã. 

O primeiro astro do ballet foi Louis XIV, o Rei Sol, que começou a ter aulas quando criança e, aos 12 anos, fez sua primeira apresentação para a corte, em Versalhes. 
Criou a Académie Royale de la Danse para difundir e popularizar a arte e criar professores e coreógrafos. 
Até 1681, os homens faziam o papel feminino na coreografia. 
Em 1713, foi fundada a Escola de Dança da Ópera, de Paris.
 Mais tarde, o centro mundial do ballet passou a ser S. Petersburgo, na Rússia, quando Marius Petipa(1818-1910), coreógrafo francês, lá se fixou. 
Sergei Diaghilev fundou a era do ballet moderno e criou a sua própria companhia. A Escola Russa de Ballet formou bailarinas e bailarinos célebres como Nijinsky, Pavlova e Fokine Karsavina. 

A Primeira Guerra Mundial fez o ballet russo se espalhar pelo mundo. As cidades emissoras passaram a ser Londres (Sadler´s Wells Ballet) e Nova York. (com o Ballet Theater e o New York City Ballet). 
 A partir de 1956, o Grupo Bolschoi, de Moscou, retoma a primazia da cidade como centro mundial da arte, com as lições de Agripina Vaganova, considerada a maior professora de ballet do século XX e criadora do método que leva seu nome.
  
Ballet chega ao Brasil

No Brasil, a primeira apresentação do ballet clássico foi realizada no Real Teatro de São João, no Rio de Janeiro, em 1813, um espetáculo dirigido por Joseph Lacombe que tinha uma academia na rua do Ouvidor (no centro, a rua da moda na época), compôs danças para a Corte e, mais tarde, foi promovido a Maestro de Danças da Casa Real.

Só no começo do século XX, com as apresentações das companhias russas de Diaghilev e Pavlova, também no Rio de Janeiro, o interesse pelo ballet se aprofundou entre nós. Em 1927, foi criada a Escola de Dança do Theatro Municipal que vem formando, desde então, várias gerações de profissionais (Berta Rosanova, Leda Yuqui, Madeleine Rosay e Carlos Leite, Dalal Achcar, Márcia Haydée e Ana Botafogo).

Da Escola de São Paulo, dirigida por Vaslav Velchek, coreógrafo convidado, saíram Hugo Bianchi, Alexander Yolas, Juliana Yanakieva, Raúl Severo, Aurélio Milloss, Tatiana Leskova, entre tantos outros.  

Dança Contemporânea (ou Dança Moderna)

Surgida na década de 60, como protesto e rompimento com a cultura clássica, mais que uma técnica específica a dança contemporânea é uma coleção de sistemas e métodos desenvolvidos a partir da dança moderna e pós-moderna.

Teve como paradigma a New Dance da Inglaterra e do Canadá, mas seguiu rumo próprio. Os passos do ballet clássico foram mudados, as bailarinas abandonaram as sapatilhas e homens e mulheres esqueceram um pouco o cuidado excessivo com o peso e se concentraram na expressão de sentimentos, conceitos e idéias.

Como não possui um "modo de usar’, nem regras estabelecidas, qualquer pessoa pode praticá-la. 
A música que serve como pano de fundo tem outras harmonias e, muitas vezes, nem existe. 
Nos domínios da Dança Contemporânea e - ouso dizer, sem ser do ramo - no Hip Hop, a virilidade poderia ser vista como "virtude", força, potência, coragem e robustez, resultado final de séculos de domínio patriarcal, valorizada na função do provedor. 

Para a maioria de nós, ocidentais, este modelito não faz sucesso, assim como a percepção do que é ser um macho da espécie evoluiu sensivelmente no mundo pós moderno. 

A virilidade transcende as representações dos arquétipos masculinos (semi-deuses, heróis, príncipes encantados) e da fêmea da espécie - e a feminilidade com sensibilidade que lhe são atribuídas - passam longe da imagem quase santificada da heroína.
Todos são iguais perante as leis do ballet clássico, da dança moderna e contemporânea e do hip hop.  
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