sábado, 12 de fevereiro de 2011

Elizabeth Bishop- Centenário de nascimento da"Poeta dos poetas"

" A arte de perder não é nenhum mistério"
Embora tendo produzido grande parte de sua obra nos 16 anos em que viveu no Brasil(onde foi condecorada com medalha da Ordem de Rio Branco em 1971),nenhum poeta de sua geração foi mais premiado que Elizabeth Bishop nos Estados Unidos.
Ganhadora,entre muitos outros, do National Book Award ,do Premio Pulitzer em 1956 ,do Prêmio da American Academy of Arts and Letters (para onde foi eleita em 1976) foi a primeira mulher e primeiro cidadão norte americano a receber Premio Neustadt .Deixou menos de cem poemas,mas o interesse por sua obra só tem crescido. |
Traduziu com sensibilidade a produção de grandes poetas, como Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e Manuel Bandeira e o livro “Minha Vida de Menina”, de Helena Morley
.Mestra na arte da epistolografia, teve sua correspondência, transformada em livro e traduzida por Paulo Henriques de Britto .Escreveu contos,ensaios e artigos para a imprensa americana, foi professora e conferencista. O contraponto desta vida literária consagrada é a história da menina que nasceu em 11 de fevereiro de 1911 em Worcester, Massachuchets. *******
O pai se suicidou quando ela era um bebê de 4 meses e a mãe enlouqueceu oito anos depois,tendo sido internada por toda vida num hospital psiquiátrico.
Criança tímida e doentia,sujeita a constantes crises de asma e alergia,foi criada a princípio no Canadá, pelos rigorosos avós paternos. Mais tarde segundo suas palavras, foi “resgatada”pela tia materna,voltando a morar nos Estados Unidos.
Na adolescência, descobriu sua homossexualidade,o que a tornou ainda mais arredia e silenciosa. Aí começaram,também, problemas com a dependência ao álcool.
Estudou no Vassar College, onde se formou em 1934.
Desfrutou a herença deixada pelo pai em viagens pelo mundo.
No início dos anos 50, durante uma viagem de circunavegação pela América do Sul para esquecer desgostos amorosos,decidiu desembarcar em Santos, vindo-em seguida-para o Rio de Janeiro.
Aqui reencontou Maria Carlota de Macedo Soares,a Lota(,arquiteta e paisagista amadora,responsável pela obra do Aterro do Flamengo)que havia conhecido em Nova York.
A alergia causada pela simples mordida em um caju impediu sua volta na data marcada.Elizabeth Bishop perdeu o navio,mas ganhou hospedagem e carinho de Lota e,assim, mudou o rumo de sua vida.
Na Fazenda Alcobacinha, (em Samambaia,município de Petrópolis, cidade distante 75 km do Rio),foi acesa a chama de um relacionamento cheio de idas e vindas, decepções e desencontros,que terminou tragicamente com o suicídio de Lota.
Além do “colo” que encontrou na pessoa da companheira e do grupo de intelectuais que a cercava, Bishop se encantou por Ouro Preto,onde comprou e reformou uma casa, hoje um ponto de atração turística: a “Casa Mariana”
Depois de resolver pendências judiciárias,relativas `a herança que Lota lhe deixou ,EB retornou definitivamente aos Estados Unidos, onde ensinou Poesia em Harvard e na New York University.
Faleceu -vítimada pelo rompimento de um aneurisma- em 6 de outubro de 1979.
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A história destas duas corajosas e interessantes mulheres foi contada por Carmen Lucia Oliveira no livro “Flores raras e banalíssimas”,editado em 1995 e que,traduzido para o inglês pela Rutgers,obteve resenhas muito favoráveis da crítica norte-americana em geral. O monólogo “Um porto para Elizabeth Bishop”,de Marta Goes, com Regina Braga protagonizando a poeta,itinerou pelo Brasil com enorme sucesso,no ano de 2001. O poema “A Arte de Perder”foi traduzido por Paulo Henriques Britto.
Um vídeo clipe, tendo ao fundo a voz pungente de Bishop em seus últimos dias é reflexão para superar as perdas inevitáveis que sofremos pela vida e está disponível em
htmlhttp://www.learner.org/catalog/extras/vvspot/video/bishop.html *********************************
Bibliografia de Elizabeth Bishop:
North and South (1946),
A Cold Spring (1955),
Questions of Travel (1965),
The Complete Poems (1969)
The Diary of Helena Morley(tradução),livro de viagem
“Brazil “(1962), Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry :compilação e tradução, com Emanuel Brasil,
”Brazil III(1972),e muitos pequenos contos.
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One Art
The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent to be lost that their loss is no disaster. Lose something every day. Accept the flusterof lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
Then practice losing farther, losing faster: places, and names, and where it was you meant to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last, or next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster, some realms I owned, two rivers, a continent. I miss them, but it wasn't a disaster.
--Even losing you (the joking voice, a gesture I love)
I shan't have lied. It's evident the art of losing's not too hard to master though it may look like
(Write it!) like disaster.
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>A Arte de Perder
“A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério. Depois perca mais rápido, com mais critério: Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça
(Escreve!) muito sério. “
Tradução de Paulo Henriques Britto
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