quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Rachel de Queiroz

 Um encontro no aeroporto



O avião ainda pousado na pista do Charles de Gaulle quando você,delicadamente,perguntou se eu estava viajando sozinha. Disse que não, que estava acompanhada do marido. ”Ah, desculpe”, respondeu você,”é que me sentiria mais `a vontade viajando ao lado de uma senhora, operei a vista, esta viagem foi uma bravata, os amigos me embarcaram aos cuidados dos comissários,mas estou muito crescidinha para precisar de babá”

. -Mas claro ,respondi, com certeza, será um prazer e uma honra,vamos providenciar agora mesmo a troca dos assentos.Marido a gente vê todo dia.

Uma pessoa como você ao lado? isso acontece uma vez na vida. .

No Dicionário Houaiss,pág.1890,está o verbete __memoria__ 
1. " faculdade de conservar e lembrar estados de consciência passados e tudo quanto se ache associado aos mesmos. 

2.lembrança que alguém deixa de si quando ausente, ou depois de sua morte”

Quem quiser conhecer uma pessoa em essência, deve viajar com ela.Principalmente se o local for exíguo,se o espaço tiver que ser dividido, quando tudo conspira para que as horas custem a passar.

Pessoa pública admirada e respeitada de norte a sul do Brasil,você foi de uma simplicidade comovente. 
Depois da decolagem, revelei que Já conhecia sua fama de gentil e cativante porque tinha sido aluna de um bom amigo seu,o professor Djacir Menezes,e que-mais tarde- minha filha e a neta dele foram coleguinhas de Jardim de Infância.

Num daqueles papos de porta de escola,Vleuda(filha do meu Mestre),falou detalhadamente sobre você. Recordou que quando você telefonava, se a mãe dela atendia, a conversa seria muito animada e sem pressa sobre receitas, pontos de croché,novelas. 
Logo em seguida,com o amigo intelectual,você passaria a discorrer sobre Política, Economia e Mercado de Capitais,sobre Literatura e Artes em geral.Você era multimídia.

Durante horas,foram incontáveis as manifestações de despojamento que você protagonizou naquele voo. 
E, lembro também,sua filosófica reflexão sobre os medos que a velhice traz, sobre as perdas que a gente sofre à medida em que vai ganhando cabelos brancos, osteoporose,adiposidades.

Perda da visão, da audição, dos dentes- nossas primeiras defesas,nossas primeiras armas-e mais do que tudo a perda da capacidade de reter o saber adquirido, a circulação cerebral lenta se instalando, a deterioração.

A própria situação em que você se encontrava era complicada : uma mulher famosa,admirada, declarada imortal enquanto ainda viva, tendo que ser ajudada por uma estranha para se sentir mais segura.

E assim você jantou, dormiu.acordou, tomou café da manhã, deu autógrafos.E em nenhum momento perdeu a majestade.

Quando o comandante anunciou que estávamos aterrisando, perguntei como chegaria em casa.
Você respondeu que iria de taxi. Oferecemos uma carona que você aceitou sem a menor frescura e,na hora de dar a direção ao motorista, descobrimos que éramos vizinhos de Leblon.
Trocamos endereços, telefones e achei que a história tinha super valido a pena e estava acabada por ali. 
No dia seguinte,chegando em casa,encontrei lindas flores me esperando na portaria.

E um cartão, guardado até hoje, tendo agora-por motivos óbvios- virado para sempre uma relíquia:
"Thereza,obrigada pela sua companhia.Rachel de Queiroz"

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