Sábado, 26 de Julho de 2008

Pra frente é que se anda


Mariela Castro, sexóloga sobrinha de Fidel Castro está mudando os hábitos em Cuba

(novembro 2007)

Mariela Castro Espín, sobrinha de Fidel Castro, roubou a cena em julho de 2006, na Conferência dos Direitos Humanos para a Comunidade Gay que aconteceu em Montreal, evento paralelo ao Gay Games. Uma espécie de Olimpíada alternativa quadrienal - evento que pretende salvaguardar os princípios de participação, inclusão e auto estima da comunidade GLBT em quatro continentes. Mariela, heterossexual, divorciada de um chileno e casada pela segunda vez com italiano, mãe de três
filhos é, atualmente, a voz da comunidade gay na Ilha.


Filha de Raul Castro, Ministro da Defesa em Cuba e primeiro da linha de sucessão do ditador Fidel Castro (de 80 anos e gravemente doente), prega uma revolucionária revisão nas leis e costumes de sua pátria natal. A partir desta constatação, a imprensa internacional começou a repercutir com freqüência o trabalho de Mariela, também dirigente do Centro Nacional Cubano para Educação Sexual e o projeto de lei que ela defende.

Ovelha negra

É necessário lembrar que Mariela, nascida em julho de 1963, é filha de Vilma Espìn, recentemente falecida, engenheira química de origem francesa que era a primeira dama oficial de Cuba, já que Dalia Sotto del Valle, mãe de cinco dos filhos de Fidel Castro sempre esteve e afastada do cenário político. Vilma também foi a poderosa presidente da FMC (Fundação das Mulheres Cubanas) e teve enterro de chefe de Estado.

A filha seguiu e aperfeiçoou o trabalho da mãe. Mariela Castro, sexóloga e psicóloga, lidera campanhas de prevenção contra AIDS e milita pela aceitação da homossexualidade, bissexualidade, travestismo e transexualidade. Em 2005, apresentou um outro projeto que, em algum lugar do futuro, permitirá mudança de gênero com assistência total em cirurgias de reconstrução genital, e todo o tratamento hormonal e estético que vem no pacote, finalizando com emissão de novos papéis e documentos.

Publicou 13 artigos acadêmicos e nove livros. Preside a Comissão Nacional para o tratamento de distúrbios de identidade sexual, é membro do Grupo de Ação Direta
para Prevenir Aids, que encara a doença de frente se já estiver instalada e acelera meios para combatê-la. A propósito dessa transgressora do primeiríssimo escalão, Norberto Fuentes - escritor e jornalista e uma espécie de porta voz da família Castro - declarou em entrevista que Mariela é considerada uma ovelha negra porque "com o espírito livre que tem, atuou num filme dos anos 80 fazendo topless" e "chocou todo
mundo ao se declarar a favor da Perestroika - (Perestroika= reconstrução, reestruturação) uma tentativa de reforma nas bases do comunismo, introduzida na União Soviética por por Mikhail Gorbachev, em 1985.

O caso Reinaldo Arenas
Para exemplificar a tática adotada no passado e comparar com a abertura em andamento, nada melhor que o caso Reinaldo Arenas. A "confissão" da homossexualidade do escritor cubano foi interpretada como um rompimento com a ditadura castrista e provocou tamanha irritação entre as autoridades revolucionárias que logo o enviaram para um campo de reeducação da UMAP (Unidad Militar de
Ayuda a la Producción), cujo objetivo era readaptar sexual e socialmente os cidadãos considerados de "conduta imprópria".

Nascido na aldeia de Holguín em 16 de julho de 1943, Reinaldo Arenas foi, durante anos, a vítima eletiva de Fidel Castro. Durante toda a década de 70, o único sinal da
existência de Arenas foi a edição francesa da obra "El Palacio de las Blanquísimas Mofetas" (1975). Dois anos mais tarde sairiam as edições mexicana e espanhola.

Publicar sem a autorização da UNEAC (Unión Nacional de Escritores y Artistas de Cuba) era um delito. E Arenas o cometeu. A polícia política cubana conseguiu confiscar e destruir algumas de suas obras e o declarou apátrida. Já uma celebridade mundial, o poeta enfrentava o veto do Estado em seu trabalho e em sua vida.

Mudando constantemente de endereço, trabalhava fazendo biscates para sobreviver.
Mariel é um povoado de Cuba, localizado na baía do mesmo nome, em Havana. Em 1980, milhares de cubanos protagonizaram a famosa partida do porto de Mariel
para os Estados Unidos. Estes expatriados passaram a ser chamados de "marielitos". Os marielitos eram os inconvenientes do regime, o grande grupo formado por
dissidentes, criminosos, doentes mentais e... homossexuais. Com total endosso do governo castrista, sob pressão dos cubanos já residentes em Miami e com a imigração
americana fazendo vista grossa, aconteceu o êxodo de milhares de indesejáveis. O governo revolucionário castrista, mais tarde, explicou sua atitude como tentativa de "depurar a sociedade e purificar a pátria."

Novos tempos

Um outdoor exibido em 2003 que mostrava dois homens abraçados e duas heroínas formando um par lésbico na novela campeã de audiência da tv estatal, desmentem o passado de repressão à homossexualidade em Cuba. O periódico Juventud Rebelde publicou uma reportagem com pais de um jovem gay assumido, contando suas
experiências. A revista da Universidade de Havana divulgou um estudo sobre a diversidade sexual: "O preço da diferença". Em 2005, o Instituto Cubano para Artes e Cinema organizou um festival sobre diversidade sexual, projetando filmes estrangeiros sobre o tema. Terminado o Festival, foi exibido pela primeira vez na televisão "Morango e Chocolate" (1993), dirigido por Tomás Gutierrez Alea (recentemente falecido e considerado um dos maiores cineastas cubanos) e Juan Carlos Tabío, filme que estava proibido há onze anos. O filme denuncia a perseguição a que foram submetidos os homossexuais no país durante os anos setenta. A paraestatal Cenesex (Centro Nacional de Educação Sexual) - que cuida de mulheres, crianças e da
igualdade de direitos - abriu na internet um fórum de discussão com o slogan: "A homo ou bissexualidade não são doença, nem perversão, nem delito".

O Infomed.cuba, site da internet mais visitado de Cuba mostra fotos de transexuais trabalhando na área de saúde, informações sobre legislação e a percepção social da homossexualidade. (Não sou comunista nem hipocondríaca, mas recomendo
vivamente uma visita ao Portal, é completo.)

"É uma luta de longa duração", diz Mariela Castro, também diretora do Cenesex, "mais de trinta anos de luta. Mas, por outro lado, seria impensável tratar desse tema no programa do ensino médio há dez anos. Formação profissional de travestis seria
impossível. Agora, gays, lésbicas e travestis começam a ter visibilidade em Cuba".

Mas as pesquisas aplicadas pela equipe da revista Alma Mater ("a revista para jovens mais antiga de Cuba", 85 anos nas bancas) mostram que a opinião pública anda bem distante do progresso anunciado e que a homossexualidade ainda não é aceita pelo grande público.

Como geralmente acontece quando mudanças são necessárias, é da juventude que chegam aceitação e a tolerância. Palavras que soam como música suave

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